Próximo domingo é Domingo de Ramos. Neste dia celebramos a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, uma imagem que pode parecer um pouco contrastante: o povo o recebe com festa, e dias depois, ouve-se uma multidão gritando que crucifiquem-no e libertem o assassino Barrabás.
O que pensar numa situação dessas? O que podemos refletir? Talvez quem leia a história superficialmente considere o povo volúvel ou extremamente manipulável, o que não seria de todo uma mentira (assim como se falássemos o mesmo do povo atual). Porém gostaria de convidá-los a uma reflexão um pouco mais profunda da história, ates de falarmos da importância desse dia no calendário litúrgico.
Jesus Cristo conhecia seu destino quando voltou a Jerusalém, tinha certeza que morreria, mas confiou na sua missão, confiou que teria que passar por isso. Por outro lado, Cristo não era o único que sabia de sua iminente morte, fora alertado antes de ir do clima que encontraria, e o perigo que correria se isso fizesse.
O povo já o via como um Salvador, mas não da forma que Ele era. A maioria o enxergava mais como um revolucionário que livraria Jerusalém do poderio romano, algo que em parte agradava a todos, inclusive aos "sacerdotes" e escribas que funcionavam como um poder local. Porém para esses não agradava nem um pouco a ideia de que o povo aclamasse Cristo como um salvador e possível novo rei de Israel. Sair do poderio romano seria um bom negócio contando que eles que compunham a elite ficassem no poder. Só que viram que isso não aconteceria, pois Jesus inflamava as multidões, e aqueles que até então eram simples vassalos que obedeciam sem pensar, estavam ficando cada vez mais auto-confiantes e se a situação continuasse, com ou sem Cristo, poderiam se rebelar por conta própria e com cada vez mais força. Já havia alguns movimentos de revolta, inclusive Barrabás era líder de um deles, e se mais e mais pessoas acreditassem em si, tais movimentos poderiam tomar dimensões incontroláveis para a elite que, mesmo com o poder romano acima, mandava naquela região.
Os evangelhos nos contam que os próprios apóstolos acreditavam numa revolta armada, tanto que um deles, Judas Iscariotes, vendo que isso nunca aconteceria, entregou por algumas moedas (e por insatisfação com a situação) Cristo aos soldados dos sacerdotes. Para o império romano nada do que ali estava acontecendo importava muito: seu exército tinha poderio suficiente para aniquilar toda aquela região se preciso fosse. Mesmo assim, Pilatos, governador e representante do império na região, demostrou certa simpatia por Cristo. Alguns livros não canônicos atribuem tal simpatia ao fato da esposa de Pilatos ser simpatizante das ideias pregadas por Jesus. Por outro lado, o Pilatos não enxergava ameaça alguma naquele que lhe entregavam e pediam a crucifixão. No fim para ele pouco importava, poderia negar a crucifixão de Cristo e mandar um destacamento para conter os desgostosos. Mas esses eram a elite, os "sábios" que dali tomavam conta; o imperador e seu governo tinha mais com que se preocupar. Mal ou bem a elite local não questiona o poder de Roma nem suas ordens. Pilatos lavou as mãos e entregou para que fizessem o que quisessem. Eles que se divertissem e os soldados que quisessem também. Em palavras atuais: que se danem, não to nem aí.
Nesse domingo celebramos o término de uma fase de espera, e o início de uma semana de reflexão, cujo ápice se dará no tríduo pascal com a Instituição da Eucarística, a morte em cruz e a Ressurreição de Cristo, já no Domingo de Páscoa. Será uma semana em que temos que deixar para trás as tentações, os erros e entrarmos triunfantes para uma vida nova. Não será indolor, assim como Cristo teve de morrer na Cruz para ressuscitar em seu poder e Glória, nós também temos que deixar morrer em nós o que de mal ainda há em nossos corações e nossas vidas. Temos que aprender a perdoar, não por palavras e mas de coração a quem nos fez mal. E principalmente perdoar a nós mesmos, deixar os pesos das dúvidas, dos erros, do pecado, de tudo que nos faz mal fisico e espiritualmente.
Vamos entrar nessa Semana Santa de de alma limpa e coração aberto para que possamos junto a cristo, ressuscitar para uma vida melhor.
Opiniões, comentários e assuntos do momento, diretamente da cabeça de um escritor errante porque não para no meio do caminho e também erra.
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quarta-feira, 16 de março de 2016
quarta-feira, 9 de março de 2016
Este Pranto
Em meio a Quaresma, hoje gostaria de escrever um pouco sobre essa bela música e a história por trás dela. Ouvi essa história na última quinta-feira, na Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, na Rua da Alfandega, no Centro do Rio de Janeiro. Quem contou foi o diácono Melquisedeque, que toda quinta-feira celebra a Adoração ao Santíssimo naquela igreja.
Waldeci (autor da música¹) sempre foi um rapaz participante das atividades da igreja, tendo sido batizado, crismado, feito sacramento da comunhão.
Com o tempo cresceu e começou a ficar seduzido pelo que o mundo oferecia, através de "amigos" nem tão amigos assim. Começou a deixar de lado não apenas suas participações na igreja, como também sua própria fé. Entregou-se ao mundo, começou a consumir drogas, álcool, procurar sexo fácil com prostitutas e festas onde tudo era permitido.
Acabou contraindo uma doença terminal, e nesses momento, aqueles "amigos" percebendo que ele não tinha nada mais a contribuir, o deixaram de lado. Sentindo-se sozinho, e próximo da morte, lembrou-se da vida que tinha antes de "cair no mundo". Quis se reaproximar da vida que havia deixado, nem que fosse para morrer em paz com Deus.
Conversando com o padre, disse que havia composto uma canção, pois sentia-se exatamente como o filho da paródia do filho pródigo: havia deixado a segurança do que lhe fazia bem, pelo desconhecido do mundo de facilidades, em busca da felicidade que nunca encontrara. Disse ao padre que o considerava ali a própria presença de Cristo, e gostaria de confessar-se, com os versos de sua composição, e no fim falaria de seus pecados:
Muito alegre eu te pedi o que era meu,
partir, um sonho tão normal
Dissipei meus bens e o coração também,
no fim meu mundo era irreal
Entregar-se ao mundo que lhe dizem ser bom, um sonho tão normal de ser feliz. Deixar para trás, tudo que tinha, acreditando que poderia ser feliz. Uma felicidade inexistente, um mundo irreal, pois longe de Deus não ha felicidade real.
Confiei no Teu amor e voltei
Sim, aqui é meu lugar
Eu gastei Teus bens, oh Pai,
E te dou este pranto em minhas mãos.
Mesmo no momento de tristeza, mesmo no momento em que todos o abandonaram, todos aqueles que ele confiara, para ir em busca desse sonho irreal... Mesmo nesse momento ele lembrou de quem nunca o abandona. Precisou cair, sofrer para valorizar e entender que ali é seu lugar, e apesar de ter esbanjado e abandonado toda graça , é recebido de volta.
Mil amigos conheci, disseram adeus
Caiu a solidão em mim
Um patrão cruel levou-me a refletir:
Meu pai não trata um servo assim
"Amigos", os falsos amigos que apenas estão interessados no que possa oferecer. Dividir a conta do bar, companhia para zoar, aprontar, não para viver de verdade. Abandonado, triste e solitário. Quem está com Deus, de verdade e coração, nunca está só.
Nem deixaste-me falar da ingratidão,
Morreu no abraço o mal que eu fiz
Festa, roupa nova, anel, sandália aos pés
Voltei à vida, sou feliz
Sentia-se ingrato por ter sempre recebido bençãos, e ter deixado de lado quem só o fizera bem, em troca de algo irreal. A marca do erro ficou no coração de quem errou, e de quem perdoou. Mas o mal e a tristeza, morreram no abraço. Um abraço de perdão, um abraço de amor. E agora, novamente sentindo-se parte da festa que é estar em paz consigo e com quem se importa realmente com ele, afirma que agora sim, voltou a vida e é feliz de verdade.
Convido você leitor, a refletir um pouco sobre essa música e essa história. Quantas vezes não buscamos a felicidade em um mundo irreal? Quantas vezes nossas atitudes e palavras nos afastam da verdadeira felicidade e de quem nos quer bem? Quantas vezes por amizades errôneas, abandonamos o que realmente somos, abandonamos nossa fé, para tentar nos "encaixar no mundo" que nos é apresentado?
Aproveitemos essa Quaresma para deixar para trás nossos pesos, culpas, toda aquela bagagem que tentamos carregar, tentando nos ajeitar no trem da vida. Vamos largar amizades que não nos levam a lugar algum, vícios e costumes que não nos levam a nada. Vamos abandonar a ideia de adaptar nossa vida a "o que todo mundo faz". E principalmente vamos abandonar de vez a ideia de tentar adaptar suas crenças, sua religião, à vida que você quer levar, ao mundo bagunçado que estamos vivendo, onde tudo de ruim é permitido e tudo de bom é ridicularizado.
Vamos fazer nossa parte, cobrar de quem pudermos fazer também. E vamos orar, para que os que ainda estão no caminho não se percam, e aqueles que desviaram retomem o rumo. Vamos orar principalmente por nossa Igreja, que assim como tudo, também começa a demostrar sinais de contaminação em alguns pontos e lugares. Vamos orar para que quem governa tenha sabedoria de olhar pelo bem dos governados e não apenas de seus bolsos e posses.
Que esse fim de quaresma seja uma época de reflexão e mudanças para todos
¹ Música composta por: Waldeci Farias / Dom Navarro
quarta-feira, 2 de março de 2016
Análise: Andrea Doria
Andrea Doria, do disco Dois, da Legião Urbana, é muito simbólica, e talvez por isso, seja difícil ter uma interpretação correta.
Andrea Doria - A Grande Dama Do Mar - era um grande barco super luxuoso (tipo um Titanic) que, em 1951, fez sua viagem de estréia dirigindo-se a Nova Iorque. Entretanto, no meio da noite, entrou numa densa neblina e o capitão, contrariando os procedimentos que deveria tomar nessa situação, continuou navegando em alta velocidade. Um outro barco (Stockholm) ia na mesma direção, porém em sentido contrário. O Stockholm ainda não tinha entrado na neblina quando o radar indicou um "objeto" próximo a ele. Como não enxergava nada à sua frente, continuou seu curso. O capitão do Andrea Doria achou que o sinal no radar fosse um barco pescador, já que não via luz alguma de outro barco e resolveu passar ao lado dele por puro exibicionismo... Quando os tripulantes dos dois navios viram o que estava acontecendo, tentaram evitar a tragédia, mas era tarde e "A Grande Dama Do Mar" acabou afundando, matando 52 pessoas.
A história do Navio, não se encaixa totalmente com a música, Renato deu um depoimento ao cantor Leoni, que o publicou no livro chamado Letra, músicas e outras conversas, de 1998. Nas palavras dele:
"Andrea Doria é um navio que afundou. A idéia era fazer uma imagem meio E La Nave Va (filme de Frederico fellini, passado num transatlântico)... Na hora de escolher o título da música, fizemos um monte mitologias para a coisa ficar legal. E, no caso, Andrea Doria é uma menina. A música é um diálogo entre uma menina cheia de vida, alegria e planos, e que sempre me deu força, mas, nesse instante, é quem está derrubada. Têm coisas que ela fala pra mim e têm coisas que eu falo pra ela - o mundo está horrível, mas nós vamos conseguir, vamos juntos, etc. Quando você entra no mundo adulto, se não tomar cuidado, deixa entrar o cinismo, fica jaded. E a música é uma conversa em cima disso, e termina justamente falando: 'A gente tem toda a sorte do mundo' - sem especificar, porque, bem ou mal, a gente não é favelado, não morre de fome. 'Sei que tenho sorte, como sei que tens também'".
Às vezes parecia
Que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos
Tão certo...
Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços
De vidro...
A música retrata duas pessoas distintas. Ou talvez uma só lembrando de quem realmente é, mas que havia se esquecido. Seu passado, presente e futuro
A música mostra esse lado que muitos buscam: Mudar o mundo. Fazer a diferença. A primeira parte, nos mostra que foi fracasso o que ele queria, já a segunda, completa o pensamento primário, dizendo que ele queria fazer "milagres", queria fazer o que é impossível, pelo possível. Queria fazer a diferença.
Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...
Ele percebe que há um sorriso diferente, que não é verdadeiro, não é um sorriso alegre, o que é diferente do que já foi um dia (tristeza talvez).
Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...
Ele diz aqui, como algo sincero, que não gosta da tristeza que sente, queria ser como antes, queria ser forte. O que tem é somente seu, de mais ninguém e não de outros, ou de uma sociedade. Não adianta fugir (da realidade?) e não sentir mais essa tristeza. É preciso ser honesto consigo mesmo e retomar seu caminho
Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria
Um livro aberto...
Aqui, vemos o despreparo que ele tinha para o mundo ao seu redor, o quanto ele se sentia imaturo para viver a vida, para trilhar seu caminho sem tropeçar.
Um dia ele achou que era só improvisar e o mundo seria um livro aberto, ou seja, era somente fazer algo fácil e não "reto" (combinado) que o mundo se abriria e se tornaria bom e perfeito...
Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...
Essa parte completa a anterior.
Sentia-se fraco, tentando ser o que não era, seguindo o caminho fácil de deixar-se levar por algo que não era mais, "vendendo fácil, o que não tinha preço", negligenciando sem perceber o que sempre foi o mais importante em sua vida e sua própria vida. Quantas coisas não vendemos mesmo não tendo preço? Momentos, memórias... Quantas vezes negligenciamos quem nos é deveras importante? Apenas por brincadeiras ou coisas fúteis?
Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...
"Tudo sem sentido"... Sem razão, sem um porquê real. E ele sabe que não há explicação nem motivo para esse "comportamento errôneo".
Nessa parte, mostra o quão difícil é encontrar alguém verdadeiro, nesse mundo influenciável que a mídia nos trouxe. "Quero ter alguém/Com quem conversar/Alguém que depois/Não use o que eu disse/Contra mim". Falsidade, gente que se aproxima querendo vantagens. A eterna dúvida de confiar nas pessoas ou não; a eterna certeza de valorizar quem se confia de verdade.
Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...
Nada mais vai feri-lo. Ele sabe de seus erros, e sabe as consequências que eles provocaram, e agora sabe que deve seguir adiante, fortificado, com o aprendizado.
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também...
Tem o que ficou, e sempre terá quem é importante para si, quem tem certeza que pode e sempre poderá confiar, pois sempre estará consigo, pois já é parte de si.
Tem sorte, mais que sorte, é um abençoado, por ter em sua vida alguém especial. E ele sabe que seus erros deixam marcas, mas fortalecerá quem é de verdade. Terá a força como era antes...
Andrea Doria - A Grande Dama Do Mar - era um grande barco super luxuoso (tipo um Titanic) que, em 1951, fez sua viagem de estréia dirigindo-se a Nova Iorque. Entretanto, no meio da noite, entrou numa densa neblina e o capitão, contrariando os procedimentos que deveria tomar nessa situação, continuou navegando em alta velocidade. Um outro barco (Stockholm) ia na mesma direção, porém em sentido contrário. O Stockholm ainda não tinha entrado na neblina quando o radar indicou um "objeto" próximo a ele. Como não enxergava nada à sua frente, continuou seu curso. O capitão do Andrea Doria achou que o sinal no radar fosse um barco pescador, já que não via luz alguma de outro barco e resolveu passar ao lado dele por puro exibicionismo... Quando os tripulantes dos dois navios viram o que estava acontecendo, tentaram evitar a tragédia, mas era tarde e "A Grande Dama Do Mar" acabou afundando, matando 52 pessoas.
A história do Navio, não se encaixa totalmente com a música, Renato deu um depoimento ao cantor Leoni, que o publicou no livro chamado Letra, músicas e outras conversas, de 1998. Nas palavras dele:
"Andrea Doria é um navio que afundou. A idéia era fazer uma imagem meio E La Nave Va (filme de Frederico fellini, passado num transatlântico)... Na hora de escolher o título da música, fizemos um monte mitologias para a coisa ficar legal. E, no caso, Andrea Doria é uma menina. A música é um diálogo entre uma menina cheia de vida, alegria e planos, e que sempre me deu força, mas, nesse instante, é quem está derrubada. Têm coisas que ela fala pra mim e têm coisas que eu falo pra ela - o mundo está horrível, mas nós vamos conseguir, vamos juntos, etc. Quando você entra no mundo adulto, se não tomar cuidado, deixa entrar o cinismo, fica jaded. E a música é uma conversa em cima disso, e termina justamente falando: 'A gente tem toda a sorte do mundo' - sem especificar, porque, bem ou mal, a gente não é favelado, não morre de fome. 'Sei que tenho sorte, como sei que tens também'".
Às vezes parecia
Que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos
Tão certo...
Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços
De vidro...
A música retrata duas pessoas distintas. Ou talvez uma só lembrando de quem realmente é, mas que havia se esquecido. Seu passado, presente e futuro
A música mostra esse lado que muitos buscam: Mudar o mundo. Fazer a diferença. A primeira parte, nos mostra que foi fracasso o que ele queria, já a segunda, completa o pensamento primário, dizendo que ele queria fazer "milagres", queria fazer o que é impossível, pelo possível. Queria fazer a diferença.
Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...
Ele percebe que há um sorriso diferente, que não é verdadeiro, não é um sorriso alegre, o que é diferente do que já foi um dia (tristeza talvez).
Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...
Ele diz aqui, como algo sincero, que não gosta da tristeza que sente, queria ser como antes, queria ser forte. O que tem é somente seu, de mais ninguém e não de outros, ou de uma sociedade. Não adianta fugir (da realidade?) e não sentir mais essa tristeza. É preciso ser honesto consigo mesmo e retomar seu caminho
Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria
Um livro aberto...
Aqui, vemos o despreparo que ele tinha para o mundo ao seu redor, o quanto ele se sentia imaturo para viver a vida, para trilhar seu caminho sem tropeçar.
Um dia ele achou que era só improvisar e o mundo seria um livro aberto, ou seja, era somente fazer algo fácil e não "reto" (combinado) que o mundo se abriria e se tornaria bom e perfeito...
Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...
Essa parte completa a anterior.
Sentia-se fraco, tentando ser o que não era, seguindo o caminho fácil de deixar-se levar por algo que não era mais, "vendendo fácil, o que não tinha preço", negligenciando sem perceber o que sempre foi o mais importante em sua vida e sua própria vida. Quantas coisas não vendemos mesmo não tendo preço? Momentos, memórias... Quantas vezes negligenciamos quem nos é deveras importante? Apenas por brincadeiras ou coisas fúteis?
Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...
"Tudo sem sentido"... Sem razão, sem um porquê real. E ele sabe que não há explicação nem motivo para esse "comportamento errôneo".
Nessa parte, mostra o quão difícil é encontrar alguém verdadeiro, nesse mundo influenciável que a mídia nos trouxe. "Quero ter alguém/Com quem conversar/Alguém que depois/Não use o que eu disse/Contra mim". Falsidade, gente que se aproxima querendo vantagens. A eterna dúvida de confiar nas pessoas ou não; a eterna certeza de valorizar quem se confia de verdade.
Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...
Nada mais vai feri-lo. Ele sabe de seus erros, e sabe as consequências que eles provocaram, e agora sabe que deve seguir adiante, fortificado, com o aprendizado.
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também...
Tem o que ficou, e sempre terá quem é importante para si, quem tem certeza que pode e sempre poderá confiar, pois sempre estará consigo, pois já é parte de si.
Tem sorte, mais que sorte, é um abençoado, por ter em sua vida alguém especial. E ele sabe que seus erros deixam marcas, mas fortalecerá quem é de verdade. Terá a força como era antes...
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Análise: Marcianos invadem a Terra
"Marciano Invadem a Terra" é a décima primeira faixa do álbum "Uma Outra Estação", último gravado por Renato Russo e só lançado após sua morte. Essa música tem um misto de significados, desde lembranças até críticas. Renato Russo, expressa um pouco de sua própria história e medos, nessa composição.
Diga adeus e atravesse a rua
Voamos alto depois das duas
Mas as cervejas acabaram e os cigarros também
Cuidado com a coisa coisando por aí
A coisa coisa sempre e também coisa por aqui
Sequestra o seu resgate, envenena a sua atenção
É verbo e substantivo/adjetivo e palavrão
Lembranças das farras e festas. Atravessar a rua, deixar por um momento a rotina do outro lado e curtir a madruga, bebendo, fumando, interagindo com as pessoas, com o mundo fora da vida habitual. Lembra da própria rotina de vida que tinha anos atrás com os amigos. Mas essa vida "alternativa" e descontraída tem seus perigos: "a coisa coisando por aqui". O que seria isso? Talvez as doenças a que estão sujeitos aqueles que se jogam na vida sem cuidado, a própria Aids que acabou contraindo: sequestra, envenena a atenção, é um verbo (ela transmite), substantivo (é uma doença), adjetivo (aqueles que tem AIDS ficam marcados) e palavrão (a palavra como tabu).
E o carinha do rádio não quer calar a boca
E quer o meu dinheiro e as minhas opiniões
Ora, se você quiser se divertir
Invente suas próprias canções
O carinha do rádio, as gravadoras, sempre querendo mais e mais músicas, sempre querendo que ele gere mais lucro, mais dinheiro em cima de suas letras, de suas opiniões. E ele já está cansado de tentar agradar a todos, e esquecer de si próprio.
Será que existe vida em Marte?
Janelas de hotéis
Garagens vazias
Fronteiras
Granadas
Lençóis
E existem muitos formatos
Que só têm verniz e não tem invenção
E tudo aquilo contra o que sempre lutam
É exatamente tudo aquilo o que eles são
Essa é a parte reflexiva da música, e podemos ter duas ideias distintas de seu significado.
Marte pode ser a própria vida após a morte. O que será que existe? Um mundo similar ao nosso? Ou o simples vazio? Existem muitas teorias, muitos formatos de ideias que nada mais são que coisas envernizadas (disfarçadas) da mesma ideia. E no fim, religiosos de várias fés lutam para defender contra a visão dos outros, que no fim é sua própria visão disfarçada.
E essa morte pode ser algo muito além da própria morte física dele. Talvez ele imagine se existe vida após a morte dessa sociedade em decadência.
E então Renato começa o ponto X da questão.
Podemos trocar tais marcianos, sendo a política ou sociedade.
Existem diversas formas de governo, diversos formatos. Que só tem verniz e não tem invenção, ou seja, que eles são diversos, mas os que são parecidos, são envernizados, ou seja, são encobertos seus erros e falhas, e ele muda de cor, mas continua sendo o mesmo.
E então é dita a parte que completa a dita anteriormente: Tudo aquilo contra o que o governo luta (digo governo pra não dizer sistema nem país), é exatamente tudo aquilo que ele mesmo é. Todas as formas de acabar com a guerra, de acabar com a fome, é exatamente aquilo que ele mesmo é: Uma país de diferença social e de interesses geográficos relacionados à guerra. Tudo aquilo que dizem, é contrário aos seus atos.
Marcianos invadem a Terra
Estão inflando o meu ego com ar
E quando acho que estou quase chegando
Tenho que dobrar mais uma esquina
Marcianos invadem a Terra. A mídia invade o mundo em que vive, maquilando o mundo ao redor e inflando seu ego com ar, com coisas sem real valor. E quando ele pensa que está entendendo, quando ele começa a crer que o sofrimento dessa vida de injustiças está chegando ao fim, percebe que ainda tem mais e mais obstáculos.
E mesmo se eu tiver a minha liberdade
Não tenho tanto tempo assim
E mesmo se eu tiver a minha liberdade:
Será que existe vida em Marte?
E mesmo se pudesse seguir livre, mesmo se tivesse o conhecimento para transpor todos os obstáculos que ainda existem para termos um mundo justo, ele não tem mais tempo. No fim nenhum de nós tem tempo, mesmo que sejamos capazes de perceber onde estão os erros, temos trabalho, escola, família, sempre temos algo que nos impede de "dobrar mais uma esquina" em busca de um mundo melhor.
No fim, assim como ele lutou até seu último dia por sua liberdade, com seu desejo de o mundo melhore, o que nos resta é só essa pergunta: Será que existe vida em Marte? Uma vida fora daqui, uma vida após esta vida?
Diga adeus e atravesse a rua
Voamos alto depois das duas
Mas as cervejas acabaram e os cigarros também
Cuidado com a coisa coisando por aí
A coisa coisa sempre e também coisa por aqui
Sequestra o seu resgate, envenena a sua atenção
É verbo e substantivo/adjetivo e palavrão
Lembranças das farras e festas. Atravessar a rua, deixar por um momento a rotina do outro lado e curtir a madruga, bebendo, fumando, interagindo com as pessoas, com o mundo fora da vida habitual. Lembra da própria rotina de vida que tinha anos atrás com os amigos. Mas essa vida "alternativa" e descontraída tem seus perigos: "a coisa coisando por aqui". O que seria isso? Talvez as doenças a que estão sujeitos aqueles que se jogam na vida sem cuidado, a própria Aids que acabou contraindo: sequestra, envenena a atenção, é um verbo (ela transmite), substantivo (é uma doença), adjetivo (aqueles que tem AIDS ficam marcados) e palavrão (a palavra como tabu).
E o carinha do rádio não quer calar a boca
E quer o meu dinheiro e as minhas opiniões
Ora, se você quiser se divertir
Invente suas próprias canções
O carinha do rádio, as gravadoras, sempre querendo mais e mais músicas, sempre querendo que ele gere mais lucro, mais dinheiro em cima de suas letras, de suas opiniões. E ele já está cansado de tentar agradar a todos, e esquecer de si próprio.
Será que existe vida em Marte?
Janelas de hotéis
Garagens vazias
Fronteiras
Granadas
Lençóis
E existem muitos formatos
Que só têm verniz e não tem invenção
E tudo aquilo contra o que sempre lutam
É exatamente tudo aquilo o que eles são
Essa é a parte reflexiva da música, e podemos ter duas ideias distintas de seu significado.
Marte pode ser a própria vida após a morte. O que será que existe? Um mundo similar ao nosso? Ou o simples vazio? Existem muitas teorias, muitos formatos de ideias que nada mais são que coisas envernizadas (disfarçadas) da mesma ideia. E no fim, religiosos de várias fés lutam para defender contra a visão dos outros, que no fim é sua própria visão disfarçada.
E essa morte pode ser algo muito além da própria morte física dele. Talvez ele imagine se existe vida após a morte dessa sociedade em decadência.
E então Renato começa o ponto X da questão.
Podemos trocar tais marcianos, sendo a política ou sociedade.
Existem diversas formas de governo, diversos formatos. Que só tem verniz e não tem invenção, ou seja, que eles são diversos, mas os que são parecidos, são envernizados, ou seja, são encobertos seus erros e falhas, e ele muda de cor, mas continua sendo o mesmo.
E então é dita a parte que completa a dita anteriormente: Tudo aquilo contra o que o governo luta (digo governo pra não dizer sistema nem país), é exatamente tudo aquilo que ele mesmo é. Todas as formas de acabar com a guerra, de acabar com a fome, é exatamente aquilo que ele mesmo é: Uma país de diferença social e de interesses geográficos relacionados à guerra. Tudo aquilo que dizem, é contrário aos seus atos.
Marcianos invadem a Terra
Estão inflando o meu ego com ar
E quando acho que estou quase chegando
Tenho que dobrar mais uma esquina
Marcianos invadem a Terra. A mídia invade o mundo em que vive, maquilando o mundo ao redor e inflando seu ego com ar, com coisas sem real valor. E quando ele pensa que está entendendo, quando ele começa a crer que o sofrimento dessa vida de injustiças está chegando ao fim, percebe que ainda tem mais e mais obstáculos.
E mesmo se eu tiver a minha liberdade
Não tenho tanto tempo assim
E mesmo se eu tiver a minha liberdade:
Será que existe vida em Marte?
E mesmo se pudesse seguir livre, mesmo se tivesse o conhecimento para transpor todos os obstáculos que ainda existem para termos um mundo justo, ele não tem mais tempo. No fim nenhum de nós tem tempo, mesmo que sejamos capazes de perceber onde estão os erros, temos trabalho, escola, família, sempre temos algo que nos impede de "dobrar mais uma esquina" em busca de um mundo melhor.
No fim, assim como ele lutou até seu último dia por sua liberdade, com seu desejo de o mundo melhore, o que nos resta é só essa pergunta: Será que existe vida em Marte? Uma vida fora daqui, uma vida após esta vida?
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Interpretação: Clarisse
Continuando a análise das músicas do álbum "Uma outra estação", do Legião Urbana, trago hoje uma música de batida e letra fortes: Clarisse.
Ao ouvir a música, ao prestar atenção em sua letra, poderíamos classificar como uma música triste, mas é mais que isso. Clarisse é a realidade, é um protesto. Clarisse é uma grande obra, relatando a vida do Renato, e da própria personagem:
Aqui, Renato ainda não entrou em Clarisse, não fala ainda da vida dela, cita apenas, um menino que foi internado numa clínica (como ele próprio) e que os motivos foram a falta de atenção dos amigos (que o levaram às drogas, talvez?) e também das lembranças tristes.
Creio que essa parte, Renato se refira à sua própria história.
Aqui, começa a vida de Clarisse.
Ela está trancada no banheiro, ela se corta. Assim como o próprio Renato devia se sentir, Clarisse está deprimida, sem vontade de viver, afogada em suas dores e em seus problemas. E ninguém entende o que ela sente, o tamanho de sua dor. Esse é um costume comum das pessoas: achar que as dores de outrem são supérfluas, que "não é nada". MAs no fundo cada um sabe a dimensaõ do seu problema, a dimensão do que sente. Viver no fundo de seus problemas e suas tristezas e ter que todo dia acordar e tentar parecer forte, para viver novamente mais e mais um dia.
As amigas de Clarisse "já se foram" em ocorrências policiais, drogadas, puseram o fim a tudo que sentiam. E então todos a seu redor tentam parecer "bons samaritanos", ajudando ela, tentando entender, mas é tudo falso. Ninguém consegue entender, ninguém quer se envolver o suficiente para entender, para sofrer junto com ela. Não eles nunca conseguirão entender, eles não sabem, não entendem.
Os antidepressivos, os calmantes, as alucinações, o medo e a estranha sensação de morte.
Esse vazio, essa parte não preenchida, essa parte triste de sua vida, ela conhece. Seu tratamento continua, de tempos em tempos e de nada adianta; o mundo continua o mesmo, ela se sente a mesma. Perdida, vazia...
Clarisse tem medo. Medo da noite, medo dos homens, que se "esfregam" nela (estupros e abusos), nos caminhos da escola. Clarisse estuda, e leva a vida normal,pelo menos tenta levar, mesmo com seus problemas.
Creio que Renato Russo fala tanto dele, como de Clarisse. A falta de esperança, o tormento de saber de injustiças e incertezas e claro, negatividades. Olhar as mazelas a seu redor e tentar parecer inerte, inatingível, vendo o mundo a seu redor cada vez pior.
Então fala uma frase que complementará a ultima frase da música: "E que estamos destruindo o futuro/E que a maldade mora sempre aqui por perto", vemos que ele fala do modo que levamos o Hoje. Que agora, no presente, estamos destruindo o futuro, estamos acabando com o amanhã, tanto com nosso futuro, como também, o futuro de Clarisse e tantas outras meninas ou meninos, que são internados em clínicas, que são usados por homens que se esfregam nojentos, crianças que sentem a estranha essência do que é a morte, que desde cedo, tem que entrar pra esse mundo.
Nesse ponto, é destacado que a vida de Clarisse não é única, não é um caso isolado, tantas mulheres, tantas pessoas sofrem violência, injúrias... O mundo está do avesso, onde atos criminosos deixam de ser escandalo e passam a ser uma verdade do dia a dia de todas as cidades. Alegrias, felicidade, passou a ser algo raro, "um ponto fora da curva" do novo normal da vida.
Clarisse já conhece o mundo, se tranca em seu quarto, fica em seu mundo, com o pouco que lhe pertence.
A ultima parte, com certeza a que mais nos traz algo diferente.
Renato finaliza dizendo o sentimento dele e de Clarisse perante à todos. Ele se compara à um pássaro, trancado na gaiola e que vê todos ao seu redor esperando que ele cante como antes (de quando era livre), e diz a mensagem de esperança pra ele e para Clarisse: Um dia conseguirei existir, e voarei pelo caminho mais bonito.
A música é finalizada com a frase mais tensa e incompleta na música: "Clarisse só tem 14 anos...".
Clarisse já passou por coisas que muitos de maior idade jamais sonharam passar. Clarisse tem muita experiência pra pouca idade. Uma vasta experiência de tristezas, maus momentos, dúvidas, incompreensões e sem esperanças. E ela só tem 14 anos e simboliza como a sociedade dita moderna tem tratado daqueles que são seu futuro: expondo e deixando que se exponha a violência, ao crime, às drogas nossos jovens. E nossa única esperança é tentar acreditar que um dia conseguiremos existir e voar pelo caminho mais bonito. E que as "Clarisses" não sejam mais realidades comuns e sim apenas um personagem numa canção.
Ao ouvir a música, ao prestar atenção em sua letra, poderíamos classificar como uma música triste, mas é mais que isso. Clarisse é a realidade, é um protesto. Clarisse é uma grande obra, relatando a vida do Renato, e da própria personagem:
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha.
Aqui, Renato ainda não entrou em Clarisse, não fala ainda da vida dela, cita apenas, um menino que foi internado numa clínica (como ele próprio) e que os motivos foram a falta de atenção dos amigos (que o levaram às drogas, talvez?) e também das lembranças tristes.
Creio que essa parte, Renato se refira à sua própria história.
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer.
Aqui, começa a vida de Clarisse.
Ela está trancada no banheiro, ela se corta. Assim como o próprio Renato devia se sentir, Clarisse está deprimida, sem vontade de viver, afogada em suas dores e em seus problemas. E ninguém entende o que ela sente, o tamanho de sua dor. Esse é um costume comum das pessoas: achar que as dores de outrem são supérfluas, que "não é nada". MAs no fundo cada um sabe a dimensaõ do seu problema, a dimensão do que sente. Viver no fundo de seus problemas e suas tristezas e ter que todo dia acordar e tentar parecer forte, para viver novamente mais e mais um dia.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom-samaritano
Cumprindo o seu dever, como se eu fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
As amigas de Clarisse "já se foram" em ocorrências policiais, drogadas, puseram o fim a tudo que sentiam. E então todos a seu redor tentam parecer "bons samaritanos", ajudando ela, tentando entender, mas é tudo falso. Ninguém consegue entender, ninguém quer se envolver o suficiente para entender, para sofrer junto com ela. Não eles nunca conseguirão entender, eles não sabem, não entendem.
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
Esse vazio, essa parte não preenchida, essa parte triste de sua vida, ela conhece. Seu tratamento continua, de tempos em tempos e de nada adianta; o mundo continua o mesmo, ela se sente a mesma. Perdida, vazia...
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
Clarisse tem medo. Medo da noite, medo dos homens, que se "esfregam" nela (estupros e abusos), nos caminhos da escola. Clarisse estuda, e leva a vida normal,pelo menos tenta levar, mesmo com seus problemas.
Creio que Renato Russo fala tanto dele, como de Clarisse. A falta de esperança, o tormento de saber de injustiças e incertezas e claro, negatividades. Olhar as mazelas a seu redor e tentar parecer inerte, inatingível, vendo o mundo a seu redor cada vez pior.
Então fala uma frase que complementará a ultima frase da música: "E que estamos destruindo o futuro/E que a maldade mora sempre aqui por perto", vemos que ele fala do modo que levamos o Hoje. Que agora, no presente, estamos destruindo o futuro, estamos acabando com o amanhã, tanto com nosso futuro, como também, o futuro de Clarisse e tantas outras meninas ou meninos, que são internados em clínicas, que são usados por homens que se esfregam nojentos, crianças que sentem a estranha essência do que é a morte, que desde cedo, tem que entrar pra esse mundo.
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Nesse ponto, é destacado que a vida de Clarisse não é única, não é um caso isolado, tantas mulheres, tantas pessoas sofrem violência, injúrias... O mundo está do avesso, onde atos criminosos deixam de ser escandalo e passam a ser uma verdade do dia a dia de todas as cidades. Alegrias, felicidade, passou a ser algo raro, "um ponto fora da curva" do novo normal da vida.
Clarisse já conhece o mundo, se tranca em seu quarto, fica em seu mundo, com o pouco que lhe pertence.
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos...
A ultima parte, com certeza a que mais nos traz algo diferente.
Renato finaliza dizendo o sentimento dele e de Clarisse perante à todos. Ele se compara à um pássaro, trancado na gaiola e que vê todos ao seu redor esperando que ele cante como antes (de quando era livre), e diz a mensagem de esperança pra ele e para Clarisse: Um dia conseguirei existir, e voarei pelo caminho mais bonito.
A música é finalizada com a frase mais tensa e incompleta na música: "Clarisse só tem 14 anos...".
Clarisse já passou por coisas que muitos de maior idade jamais sonharam passar. Clarisse tem muita experiência pra pouca idade. Uma vasta experiência de tristezas, maus momentos, dúvidas, incompreensões e sem esperanças. E ela só tem 14 anos e simboliza como a sociedade dita moderna tem tratado daqueles que são seu futuro: expondo e deixando que se exponha a violência, ao crime, às drogas nossos jovens. E nossa única esperança é tentar acreditar que um dia conseguiremos existir e voar pelo caminho mais bonito. E que as "Clarisses" não sejam mais realidades comuns e sim apenas um personagem numa canção.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
As Flores do Mal
Os meus três ou quatro leitores costumeiros (eram quatro ou cinco, mas acho que um me abandonou) devem estar esperando para hoje um texto sobre o carnaval que passou, ou sobre o dia de hoje, Quarta-feira de Cinzas.Mas como todo ano faço isso, repetir seria algo enfadonho.
Mas se mesmo assim alguém estiver interessado, pode ler as postagens dos outros anos. Para quem não conhece, recomendo o último link que fala do dia de hoje, Quarta-feira de cinzas.
http://erranteescritor.blogspot.com/2014/03/carnaval.html
http://erranteescritor.blogspot.com/2015/02/carnaval.html
http://erranteescritor.blogspot.com/2015/02/cinzas.html
Mas se mesmo assim alguém estiver interessado, pode ler as postagens dos outros anos. Para quem não conhece, recomendo o último link que fala do dia de hoje, Quarta-feira de cinzas.
http://erranteescritor.blogspot.com/2014/03/carnaval.html
http://erranteescritor.blogspot.com/2015/02/carnaval.html
http://erranteescritor.blogspot.com/2015/02/cinzas.html
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Pré-carnaval
Ando pelo Centro da cidade, e vejo as calçadas cheias de gente. Semana pré-carnaval. Em breve as ruas estarão desertas de trabalhadores e repleta de foliões.
Na venida principal, cercas foram postas separando as pistas. Talvez para que as pessoas em meio a folia não resolvam atravessar e provoquem acidentes. Talvez seja para que foliões mais exaltados não atrapalhem o espaço das escolas de samba, que estarão se organizando em breve por ali, para desfilarem no sambódromo.
Próximo ao sambódromo, já montaram a passarela como de costume (nunca entendo porque não fazer uma fixa invés de montar e desmontar todo ano),as arquibancadas populares "beira-canal" ou "beira-valão" já estão prontas. Ali é um dos poucos pontos justos de toda essa festa no local. Quem tem dinheiro compra ingresso e fica nas arquibancadas do desfile, outros mais abastados ficam nos camarotes com regalias. O povão que chega cedo fica ali ocupando aqueles lugares e vendo a escola antes de entrar para desfila, os demais ficam ao longo do caminha na avenida, de pé mesmo ou no elevado que passa perto, tentando ver o desfile do alto.
Os blocos já começaram a animar os últimos fins de semana e virão neste com força total. Bacana, legal para quem gosta de ficar em meio a multidão com esse calorão. Infelizmente alguns bebem demais e estragam a festa. Outros estragam porque gostam, nem precisam beber para isso. Mas esse tipo de gente existe em toda parte. Infelizmente.
Muita gente não entende quando opino sobre determinados aspectos do carnaval, ou quando digo que a melhor coisa do carnaval, para mim, é a quarta feira de cinzas. Não sou contra quem curte o carnaval, não sou contra nosso povo tão sofrido se divertir pelo menos nessa época e esquecer um pouco seus problemas. Sou contra apenas dois aspectos: a depravação desacerbada de alguns e a falta de prioridade de outros.
Só porque é época de festa não há razão de se cultuar o profano e se profanar. Com a desculpa de "ser carnaval", muitos se entregam a luxúria sem sentido, fazendo coisas que não fariam em outras épocas por não ser "socialmente aceitável". Há foliões verdadeiros que se divertem, que gostam... Outros sinceramente parecem perder a noção das consequências para si e para os demais.
E no fim, acompanhando a balburdia de alguns, quem deveria ser exemplo é quem faz as maiores "sacanagens". Prefeitura, governo estadual e federal, que queixam-se de não ter dinheiro para investir em saúde, segurança e educação, abrem os cofres para financiar festas, escolas de samba, abrem portas, portos e aeroportos, não simplesmente para que pessoas de fora venham participar, mas lucrar com tudo isso. É um espetáculo lucrativo, mas não traz nenhum retorno para o Estado. Por que não usar o "dinheiro do carnaval" em coisas mais importantes para a população? Por que não investir esse dinheiro em saúde, educação, segurança, que servirá ao povo durante todo o ano e não apenas alguns dias? Por que não deixar que a iniciativa privada, e apenas ela, banque com os custos, já que essa sim consegue grandes lucros com o carnaval?
Meu desejo é que todos aproveitem de maneira saudável o carnaval. Quem for de festa e folia, divirta-se até cansar. Quem não for, que use esse tempo para coisas que goste. E que todos, foliões ou não, possam chegar bem na quarta-feira de cinzas.
Um bom carnaval a todos!
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