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quarta-feira, 29 de maio de 2019

Apenas um dia.

Acordei como em um dia qualquer, ainda meio atordoado por um sonho que tive. Isso durou bem pouco, em alguns minutos não lembrava mais o que sonhar e sinceramente parecia que nem mesmo dormira.

Olhei a meu redor, já passado o atordoar do sono, e percebi que algo parecia diferente, na verdade muito diferente. Aquele era apenas um dia, na verdade apenas o dia. Confuso ao escrever, mas fácil de explicar.

Por muitas vezes ouvira quem desejava ter apenas um dia e nada mais, por uma diversidade de motivos e razões. E eu um dia desejara isso por um motivo muito mais simples e por uma razão um tanto quanto simplória: apenas para ser. Sim, ser, existir e nada mais. E este era o dia que eu pedira.

Um dia livre de qualquer regra ou convenção social. Não, não era como "Uma noite de crime", filme em que durante uma noite todas as atrocidades podem acontecer sem qualquer impedimento ou restrição. Era algo mais simples: minhas próprias convicções eram minhas regras e só a elas eu deveria seguir, por um dia inteiro.

Saí de casa, da mesma forma que faço todos os dias, após tomar meu ínfimo café da manhã. Não sinto fome para comer muito em um dia comum, ainda mais em um dia que eu poderia fazer o que minha vontade mandasse.

Apenas caminhava, como se o mundo não existisse ou em nada me influenciasse. Sem rumo, sem destino, sem caminho certo, fui parar em um lugar amplo, com um belo gramado e algo que parecia um grande e límpido lago. Apenas sentei-me sentindo a brisa úmida que batia em meu rosto, e enchia meu corpo de uma energia que não sou capaz de explicar.

Sentia meu corpo em êxtase como nunca antes. Poderia entrar no lago, nadar por horas, mas algo me impelia a fazer diferente, quase como uma atração inexplicável. Segui andando, até chegar em um belo lugar. Meu coração disparava, conforme caminhava cada vez mais perto. Olhava para as árvores que ali ficavam, a brisa que tocava meu rosto de forma suave e aquele doce aroma no ar. Depois de passear calmamente por aquele jardim, entrei na gruta enquanto a emoção tomava conta de mim. Já visitara outras grutas, mas aquela era a primeira vez que ia até ali. Mesmo sem saber o porquê, desejava muito estar ali. E neste dia eu podia, sem me preocupar com o tempo ou qualquer outro receio que sempre tivera de ir até ali.

O lugar era quente, mas um quente aconchegante e úmido. E cada vez que eu entrava mais, parecia que o rio que ali existia aumentava seu volume e eu me molhava sem medo ou culpa.Explorei aquele lugar como nunca fizera, até não mais poder. Saí pelo mesmo caminho que entrei e deitei ali junto ao jardim, apenas observando tudo ao redor.

Da mesma forma que fui impelido a estar ali, algo me incentivava a retornar. Olhei por uma última vez para aquele belo lugar: o jardim, suas árvores frutíferas, aquela energia boa que fluía daquele lugar. A gruta e seu rio corrente, mesmo sendo um lugar prazeroso de se estar, perdiam até sua importância comparada com o lugar como um todo.

Retornei ao gramado a beira do lago e me permiti novamente repousar um pouco ali. Já passara da hora da refeição, mas sinceramente não tinha fome alguma.  Naquele momento eu só pensava em descansar. Um dia inteiro esvaziando consideravelmente a mente, sentia falta apenas de algo para um dia perfeito: voltar para casa, para junto de quem amo.

Naquela noite dormi como há muito não dormia. E acordei sem saber se tudo que passara foi real, ou apenas um sonho...

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Eu Quero Ser Feliz Agora

Só um texto pra pensar... E agir....




Se alguém disser pra você não cantar
Deixar teu sonho ali pr'uma outra hora
Que a segurança exige medo
Que quem tem medo, Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
Que nessa festa você tá de fora
Que você volte pro rebanho
Não acredite, grite, sem demora

Eu quero ser feliz agora


Se alguém vier com papo perigoso de dizer
Que é preciso paciência pra viver
Que andando ali quieto
Comportado, limitado
Só cuidado, você não vai se perder

Que manso imitando uma boiada
Você vai boca fechada pro curral sem merecer
Que Deus só manda ajuda a quem se ferra
E quando o guarda-chuva emperra certamente vai chover

Se joga na primeira ousadia
Que tá pra nascer o dia do futuro que te adora
E bota o microfone na lapela
Olha pra vida e diz pra ela

Eu quero ser feliz agora



Oswaldo Montenegro

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Máquina do tempo

Se o mundo voltasse... Reviver momentos... 

Finjo não saber que o tempo passa logo, finjo para tentar conter a saudade do que já se foi.

Ah que bom seria se o tempo voltasse...

Muita coisa viveria de novo, exatamente como foi, porque foi bom. Mesmo não tendo sido exatamente como sonhado, mesmo que muitas coisas tenho sido não planejadas ( e eu sou um eterno amante de planejar) reviveria com alegria. Sorri, sonhei com mundos que não estavam a meu alcance, mas também alcancei mundos inimagináveis a priori.

Reviver os passos seja como for. Lembrar do que foi bom, mas também quero tropeçar nas mesmas pedras do caminho.

E no fim, refazer a mesma rota que meu coração traçou, as alegrias que o inundaram e as tristezas que o moldaram, para chegar onde cheguei. A alegria de encontrar sem saber e a certeza de ter encontrado o que não buscava: o caminho da felicidade. 

Transformar alguns erros em acertos? Faz parte do aprendizado não repetir erros, mas a certeza da alegria final, não me deixaria mudar a rota...

Sei que é um sonho reviver... Pura ilusão... Mas deixar a imaginação flutuar em lembranças boas nos faz sorrir. Com a alma.



*Texto baseado na música Máquina do Tempo, composta por Aggeu Marques, interpretada por Flavio Venturini em : https://www.youtube.com/watch?v=ioIG_a2bZ0w

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Mas olhe...









“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o q temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas.
Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.
Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.
Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda.
Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes.
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios.
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível.
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada.
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz.
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.
Temos chamado de fraqueza a nossa candura.
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo.
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
(...)”

Clarice Lispector

quarta-feira, 27 de março de 2019

Felicidade Realista




A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote
louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser
magérrimos, sarados, irresistíveis.

Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema:
queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.

E quanto ao amor? Ah, o amor.. não basta termos alguém com quem podemos
conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar
pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente
apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes
inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos
sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o
que dá ver tanta televisão.

Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você
pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um
parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando
se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção.
Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se
sentir seguro, mas não aprisionado.
E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda,
buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e
um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato,
amar sem almejar o eterno.

Olhe para o relógio: hora de acordar.
É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza,
instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde
só quem testa seus limites é que leva o prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas
desta tal competitividade.

Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as
regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo.

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça de que a
felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir
embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não
sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração.
Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade...

(Mário Quintana)

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quarta-feira de Cinzas



O uso litúrgico das cinzas tem sua origem no Antigo Testamento. As cinzas simbolizam dor, morte e penitência. Por exemplo, no livro de Ester, Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas quando soube do decreto do Rei Asuer I (Xerxes, 485-464 antes de Cristo) da Pérsia que condenou à morte todos os judeus de seu império. (Est 4,1). Jó (cuja história foi escrita entre os anos VII e V antes de Cristo) mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (Jó 42,6). Daniel (cerca de 550 antes de Cristo) ao profetizar a captura de Jerusalém pela Babilônia, escreveu: "Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza" (Dn 9,3). No século V antes de Cristo, logo depois da pregação de Jonas, o povo de Nínive proclamou um jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que além de tudo levantou-se de seu trono e sentou sobre cinzas (Jn 3,5-6). Estes exemplos retirados do Antigo Testamento demonstram a prática estabelecida de utilizar-se cinzas como símbolo (algo que todos compreendiam) de arrependimento.

O próprio Jesus fez referência ao uso das cinzas. A respeito daqueles povos que recusavam-se a se arrepender de seus pecados, apesar de terem visto os milagres e escutado a Boa Nova, Nosso Senhor proferiu: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e as cinzas. (Mt 11,21) A Igreja, desde os primeiros tempos, continuou a prática do uso das cinzas com o mesmo simbolismo. Em seu livro "De Poenitentia" , Tertuliano (160-220 DC), prescreveu que um penitente deveria "viver sem alegria vestido com um tecido de saco rude e coberto de cinzas". O famoso historiador dos primeiros anos da igreja, Eusébio (260-340 DC), relata em seu livro A História da Igreja, como um apóstata de nome Natalis se apresentou vestido de saco e coberto de cinzas diante do Papa Ceferino, para suplicar-lhe perdão. Sabe-se que num determinado momento existiu uma prática que consistia no sacerdote impor as cinzas em todos aqueles que deviam fazer penitência pública. As cinzas eram colocadas quando o penitente saía do Confessionário.

Já no período medieval, por volta do século VIII, aquelas pessoas que estavam para morrer eram deitadas no chão sobre um tecido de saco coberto de cinzas. O sacerdote benzia o moribundo com água benta dizendo-lhe: "Recorda-te que és pó e em pó te converterás". Depois de aspergir o moribundo com a água benta, o sacerdote perguntava: "Estás de acordo com o tecido de saco e as cinzas como testemunho de tua penitência diante do Senhor no dia do Juízo?" O moribundo então respondia: "Sim, estou de acordo". Se podem apreciar em todos esses exemplos que o simbolismo do tecido de saco e das cinzas serviam para representar os sentimentos de aflição e arrependimento, bem como a intenção de se fazer penitência pelos pecados cometidos contra o Senhor e a Sua igreja. Com o passar dos tempos o uso das cinzas foi adotado como sinal do início do tempo da Quaresma; o período de preparação de quarenta dias (excluindo-se os domingos) antes da Páscoa da Ressurreição. O ritual para a Quarta-feira de Cinzas já era parte do Sacramental Gregoriano. As primeiras edições deste sacramental datam do século VII. Na nossa liturgia atual da Quarta-feira de Cinzas, utilizamos cinzas feitas com os ramos de palmas distribuídos no ano anterior no Domingo de Ramos. O sacerdote abençoa as cinzas e as impõe na fronte de cada fiel traçando com essas o Sinal da Cruz. Logo em seguida diz : "Recorda-te que és pó e em pó te converterás" ou então "Arrepende-te e crede no Evangelho".

 Aceitando que nos imponham as cinzas, expressamos duas realidades fundamentais:

Somos criaturas mortais; tomar consciência de nossa fragilidade, de inevitável fim de nossa existência terrestre, nos ajuda a avaliar melhor os rumos que compete dar à nossa vida: "você é pó, e ao pó voltará" (Gn 3, 19).

Somos chamados, chamados a nos converter ao Evangelho de Jesus e sua proposta do Reino, mudando nossa maneira de ver, pensar, agir.
Muitas comunidades sem padre assumiram esse rito significativo como abertura da quaresma anual, realizando-o numa celebração da Palavras.

Existem muitos embasamentos bíblicos sobre as cinzas através das seguintes passagens: (Nm 19; Hb 9,13); como sinal de transitoriedade (Gn 18,27; Jó 30,19). Como sinal de luto (2Sm 13,19; Sl 102,10; Ap 19,19). Como sinal de penitência (Dn 9,3; Mt 11,21). Caso se interesse pelo assunto, você pode fazer  uma pesquisa através de todas estas passagens bíblicas, prestando a atenção ao texto e seu contexto, relacionando com a vida pessoal, comunitária, social e com o rito litúrgico da Quarta-feira de cinzas.

A primeira parte deste texto foi traduzido de um escrito do Padre Saunders que apareceu publicado no Arlington Catholic Herald, em 17 de fevereiro de 1994. O Padre Saunders é Presidente do Instituto Notre Dame para Catequese e Assistente de Pároco na Igreja Rainha dos Apóstolos em Alexandria, Virigina. (Cortesia do Website EWTN, 1998) .A segunda parte foi obtida do opúsculo SÍMBOLOS NA LITURGIA, Ione Buyst, Paulinas, 1998.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Lista

Ouvi essa música  há alguns dias, e há muito não a ouvia.

Me levou a pensar. Sobre tanta coisa... Amigos que passaram, amigos que ficaram, momentos que vivi, sonhos absurdos, outros tão plausíveis que não se realizaram, nem sei o porquê. Mentiras sem sentido, verdades nunca ditas... Dúvidas não sanadas, mistérios sem sentido, segredos que nada tinham de secretos...

Me levou a pensar tanto que nem sei explicar tudo. Tanto que fiz e hoje não faria mais. Coisas que jurava para mim que nunca faria e hoje viraram rotina, defeitos que eu condenava e hoje vejo que eram minhas maiores qualidades...

Espero que leve vocês a pensarem tanto quanto levou a mim.








Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?


Composição: Oswaldo Montenegro