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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Pílulas para matrix

 Matrix é um filme de 1999, que descreve um futuro distópico no qual a realidade, como percebida pela maioria dos humanos, é, na verdade, uma realidade simulada chamada "Matrix", criada por máquinas sencientes para subjugar a população humana, enquanto o calor e a atividade elétrica de seus corpos são usados ​​como fonte de energia. O cibercriminoso e programador de computador Neo aprende esta verdade e é atraído para uma rebelião contra as máquinas, que envolve outras pessoas que foram libertadas do "mundo dos sonhos".

No filme o personagem Neo encontra Morpheus  e esse dá-lhe uma escolha: manter-se na sua vida quotidiana e no seu mundo, ou saber finalmente o que é a Matrix. Neo aceita a segunda opção e toma um comprimido vermelho. 

Nessa alegoria a "pílula que leva ao mundo real", que tira do "mundo de fantasia". E por vezes isso acontece com todos nós. Fatos, ou conjuntos de fatos, nos trazem a realidade, nos tiram do mundo de fantasia em que, sem perceber, vivíamos. Claro, comigo não foi diferente. Contudo, não "tomei uma pílula" e sim várias. Parece que tenho uma caixa delas e cada vez tomo uma e me aproximo mais do mundo real, me distanciando do mundo utópico de outrora.

Assim como com todo mundo, a primeira pílula que tomei foi quando criança, ao escutar uma frase que, mesmo solta, me marcou: não se pode mais viver tranquilo nesse mundo. Primeira vez que ouvi essa frase, com cerca de quatro ou cinco anos, dita por alguém que para uma criança, deveria ser capaz de enfrentar tudo sem temer, meu pai.

Daí para frente, a "vida" foi cobrando seu preço e eu tomando as "pílulas da realidade": primeira briga, a morte de alguém próximo, decepções, amigos que não eram amigos, amores que não amavam, pessoas que se aproximam por interesse, etc.

Creio que os grandes pontos chaves, de "tomar o comprimido da realidade" se resumem a fragilidade da vida (morte, doença, etc), decepções/traições (amores, amigos, familiares, etc) e a "falta de humanidade da humanidade"(violência, de todo tipo). Talvez esse último possa ser melhor escrito como "falta de amor ao próximo", sendo esse próximo qualquer pessoa, ser vivo, material ou imaterial. E isto provoca o anterior também.

Talvez alguém esteja pensando porque escrever sobre isso agora. A resposta é tão simples quanto provável de já ter sido imaginada: "tomei um comprimido" há bem pouco tempo e não sei se é possível existir realidade maior do que a que sinto. Não foi um fato, mas um conjunto de fatos que somados a todos os anteriores, me jogaram em uma realidade que não consigo expressar ou explicar. E nesse momento, todos fatos, desde os mais antigos, parecem que me voltam a mente e de alguma forma passam a fazer mais sentido, como se intenções fossem mais claras e eu não as enxergasse. E não é nada ruim, pelo contrário. Muito do que percebi tira um grande peso de culpa, tanto minha quanto de outrem. Perceber que em determinadas situações não houve culpados: as pessoas sempre agem segundo as ferramentas que possuem: conhecimento, habilidades, percepções, índole, sentimentos, etc. Admiti os erros, mas não posso mudá-los. Me perdoo por eles e aprendo com eles. Quanto aos erros que não são meus, os admitidos estão perdoados, os demais provavelmente se repetirão, então aprendi a ficar alerta, para não me abalar com eles. Mesmo assim, o que passou foi perdoado. 

Espero sinceramente que este seja o penúltimo comprimido que tomei. Sim, penúltimo, pois o último é o do fim da vida.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Se puder, envelheça












“A pergunta é, que dia a gente fica velho? Não vem dizer que ‘aos poucos’, colega, faz 5 minutos que eu tinha 17 anos e fui-me embora de Brasília, pra mim meu primeiro show foi ontem, e hoje eu tô na fila preferencial pra embarcar no avião.

Tem um garoto dentro de mim que não foi avisado de que o tempo passou e tá louco pra ter um filho, e eu já tenho netos. Aconteceu de repente, o personagem do Kafka acordou incerto, eu acordei idoso, e olha que eu ando, corro, subo escadas e sonho como antes. Então o quê que mudou? Minha saúde e minha energia são as mesmas, então o quê que mudou? Bom, a única coisa que eu sei que mudou mesmo foi o tal do ego, a gente vai descobrindo que não é nada, e que não está com aquela bola toda que a gente achava que estava.

A gente vai sacando que não tem importância e que pouca coisa no mundo tem importância, isso primeiro frustra, depois vai dando alívio e liberdade. Então eu acho que descobri, é isso que muda, ficar velho é sacar a nossa própria ‘desimportância’ e ficar mais solto por isso. Então vou te falar uma coisa: Vale a pena! Se puder, envelheça”.

Oswaldo Montenegro

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Morrendo com uma música...

É possível alguém morrer por uma música? Identificar-se tanto com a letra, envolver-se tanto com a melodia que sente-se morrendo aos poucos?

Essa é a ideia apresentada pela música Killing Me Softly with His (Her) Songuma canção de 1971 composta por Charles Fox e Norman Gimbel, inspirada no poema Killing Me Softly with His Blues de Lori Lieberman, que ela escreveu depois de ver Don McLean cantando a música "Empty Chairs".

A própria Lieberman foi a primeira a gravar a canção, em 1971, mas foi a versão de Roberta Flack, de 1973, que tornou a canção um sucesso, alcançando o número um na Billboard Hot 100 e ganhando três prêmios Grammy, incluindo o de canção do ano.

Embora muitos acreditem, Frank Sinatra nunca gravou esta música. Através de pesquisas na Internet podem ser encontrados várias ligações para esta suposta versão, que na verdade remetem à versão de Perry Como, que trago a seguir:






I heard she sang a good song, I heard she had a style
Ouvi dizer que ela cantou muito bem, ouvi dizer que ela tinha um estilo
And so I came to see her and listen for a while
Então vim vê-la e escutá-la por alguns instantes
And there she was this young girl, a stranger to my eyes
E lá estava ela, essa moça, desconhecida aos meus olhos

Strumming my pain with her fingers
Dedilhando minha dor com seus dedos
Singing my life with her words
Cantando minha vida com suas palavras
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção
Telling my whole life with her words
Contando minha vida com suas palavras
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção

 


I felt all flushed with fever, embarrassed by the crowd
Eu me senti todo corado de febre, envergonhado pela multidão
I felt she found my letters and read each one out loud
Senti como se ela tivesse encontrado minhas cartas e as estivesse lendo em voz alta
I prayed that she would finish but she just kept right on
Orei para que ela terminasse, mas ela continuou

Strumming my pain with her fingers
Dedilhando minha dor com seus dedos
Singing my life with her words
Cantando minha vida com suas palavras
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção
Telling my whole life with her words
Contando minha vida com suas palavras
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção

She sang as if she knew me in all my dark despair
Ela cantava como se me conhecesse em meu terrível desespero
And then she looked right through me as if I wasn't there
E então ela olhou através de mim como se eu não estivesse lá
But she was there, the stranger, singing clear and strong
Porém ela lá estava, a estranha, cantando claro e forte


Strumming my pain with her fingers
Dedilhando minha dor com seus dedos
Singing my life with her words
Cantando minha vida com suas palavras
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção
Telling my whole life with her words
Contando minha vida com suas palavras
Killing me softly with her song
Matando-me suavemente com sua canção



quarta-feira, 29 de abril de 2020

Desconhecido

Estava há um tempo sem escrever, mas hoje recebi a notificação de um comentário deito por um desconhecido. Fiquei surpreso, não com o conteúdo do comentário, mas com o fato de alguém ter comentado ( e não ser um robô, como de costume). Apesar de eu não estar escrevendo com frequência, ainda há alguém que lê, seja ocasionalmente, ou "por acidente".

Nunca objetivei ter uma série de leitores, como já mencionei escrever para mim é meio que um "ato egoísta", me faz bem e, se "por tabela" fizer bem a alguém é um grande lucro. Mas saber que alguém acessa, alguém lê, mesmo que não frequentemente, me fez sorrir, e me fez escrever.

Obrigado "Desconhecido". Espero que gostes do que lês por aqui. Se algum dia não gostar, comente também, e argumente o porquê de não ter gostado. E se um dia quiser, se identifique, se apresente, ficarei contente com isso também. Se quer manter o anonimato para o mundo não há problema. Talvez tenhas percebido que seus comentários só aparecem quando eu os "aprovo". Faço isso para evitar o monte de robôs que mandam mensagens nos comentários, então querendo se identificar apenas para este escritor, fique a vontade de fazê-lo pelo campo de comentários e mencionar um "Não publique" no fim...

Novamente, fico feliz por ter atingido alguém, ter agradado. E volte sempre.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O Mundo de LUTO


De repente a roupa de marca, o perfume importado e as jóias  não servem mais para nada, porque não tem onde exibi-las.

De repente todo o dinheiro guardado não tem onde ser usado, porque não se pode viajar ou fazer compras nos shoppings.

De repente um carro só é o suficiente, porque não se pode ir para lugar algum

De repente a casa de praia terá que ficar vazia, porque não se pode chamar os amigos para um fim de semana juntos.

De repente aquele  churrasco com a família  teve que ser cancelado e a carne congelada, porque não se pode fazer reunião familiar.

De repente aquela linda casa que vivia cheia  ficará sem ninguém  porque não se pode receber visitas.

De repente os idosos  terão que ficar sozinhos sem o carinho dos filhos e netos porque um simples abraço  pode custar sua vida

De repente aquela sonhada festa teve que ser cancelada, porque as pessoas tem medo de estar juntas.

De repente a vontade de estar perto das  pessoas queridas se tornou um desejo proíbido  porque amar agora é ficar distante

De repente entrar na igreja se tornou algo impossível,  porque as portas estão fechadas.

De repente o mundo inteiro afetado porque uma pandemia ameaça a população.

De repente tudo que se precisa é da misericórdia de Deus, porque mais nada importa agora.

(Autor desconhecido)

domingo, 8 de março de 2020

Tudo que se Quer (All I Ask of You)

Hoje, minha homenagem a mulher que mudou minha vida. Hoje pode ser o dia internacional da mulher, mas para mim todos os dias é teu dia... Vou contigo, seja aonde for...
E onde estiver estou...








Olha nos meus olhos
Esquece o que passou
Aqui neste momento
Silêncio e sentimento
Sou o teu poeta
Eu sou o teu cantor
Teu rei e teu escravo
Teu rio e tua estrada

Vem comigo, meu amado amigo
Nessa noite clara de verão!
Seja sempre o meu melhor presente
Seja tudo sempre como é
É tudo que se quer
Leve como o vento
Quente como o sol
Em paz na claridade
Sem medo e sem saudade

Livre como o sonho
Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia

Eu sou teu homem
Sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par, o teu melhor amigo
Vou contigo, seja aonde for
E onde estiver estou

Vem comigo meu amado amigo
Sou teu barco neste mar de amor
Sou a vela que te leva longe
Da tristeza, eu sei, eu vou!
Onde estiver estou
E onde estiver estou

Composição: Andrew LloydWebber / Charles Hart 

quarta-feira, 4 de março de 2020

Filme: Coringa

Tenho escutado diversas críticas ao mais recente filme do Coringa, mas não quis tirar conclusões precipitadas antes de assistir e refletir sobre o filme.

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Uma das críticas que mais se repetem tem sido que o filme enaltece o criminoso, torna o infrator um exemplo a ser aplaudido e não a ser combatido ou criticado, como o personagem sempre foi. Porém, essa versão do Coringa interpretada magistralmente por Joaquin Phoenix traz mais do a simples história de um personagem icônico dos quadrinhos, traz uma visão do mundo da perspectiva de baixo, do marginalizado, do discriminado.

E meio a uma greve dos coletores de lixo, o povo vive em meio a sujeira e as pragas que isto atrai, enquanto os ricos passam em suas limusines e carros de luxo no caminho entre suas mansões e os salões de festa, bailes e teatros de requinte. A mídia se mantem acima, noticia as mazelas que ocorrem, mas não deixa de, em sua busca por audiência, ridicularizar os desafortunados, os doentes, talvez em busca de manter seu apoio às castas altas da sociedade.

Enquanto isso, o personagem principal, com problemas mentais, tenta levar sua vida em meio a seus devaneios; ora vive o mundo real ora vive em seu próprio mundo e pensamentos. É agredido, ridicularizado e, em um transporte público mata seus agressores. Sua imagem é vista como uma resposta ao Sistema que oprime, e utilizada em manifestações populares. Busca um ricaço da cidade, para quem sua mãe trabalhou e que poderia ser seu pai. Mais uma vez é ridicularizado, ouve insultos a si e a sua mãe.Em um desfecho, ele é convidado a ir a um programa de auditório, cujo apresentador outrora admirado, o havia ridicularizado, utilizando imagens de uma apresentação mal sucedida em um clube de humor. E ali, pela primeira vez se apresenta como Coringa, e talvez pela primeira vez em toda estória, faz um discurso realmente sensato contra toda discriminação que sofreu, por não ser da elite, por não ser famoso, por ser um doente mental. Ele critica todo Sistema que "dita" o que é certo, o que é errado, quem deve viver e quem pode morrer. "O que você consegue quando cruza um doente mental solitário com uma sociedade que abandona ele e trata como lixo esse cara? Eu digo o que você consegue: consegue a merda que merece!" E mata o apresentador. Chegou ao programa com ideia de fazer seu discurso e se matar em um grande final trágico, mas mudou de ideia depois de ser novamente criticado e matou o apresentador.

Não. Nada do que passou justifica ter se tornado um assassino. Tampouco quero rotular o personagem de "vítima da sociedade". É um criminoso, que assim como foi no filme, deve ser preso e sofrer as sanções adequadas por seus crimes. Mas o grande escopo do filme, a meu ver, não é o criminoso e sim a situação da sociedade representada ali, um fiel retrato de nossa sociedade atual: os ricos e poderosos ficam protegidos e isolados das mazelas, junto a mídia buscando audiência ambos sem  se preocupar com quem atingem para manter seus status e do outro lado os pobres, os excluídos, os doentes que vivem a realidade de uma cidade violenta e em caos; uma parcela da população que é utilizada de fantoche pelos mais poderosos, na maioria das vezes sem qualquer reação, seja por ignorância (humildade, simplicidade) ou por medo. Como diz um verso da música de Renato Russo: 

"(...)
Nos querem todos iguais
Assim é bem mais fácil nos controlar
E mentir, mentir, mentir
E matar, matar, matar
O que eu tenho de melhor, minha esperança
(...)"

Uma sociedade desigual, que ignora os problemas dos menos favorecidos (como a nossa), e uma revolta desses (que nos falta). Esse, para mim, é o resumo do filme em uma frase. Querer fazer igual o diferente, esse é o grande erro de nossa sociedade, de nosso mundo.