Há alguns anos, ou talvez mais de uma década, escrevi um texto aqui que falava de heróis da vida real, e no desfecho falava do maior deles.
Na última semana, ele partiu, e esse texto, cronologicamente do avesso, é sobre ele e para ele.
Foi difícil vê-lo ser retirado da capela funerária, depois daquelas últimas horinhas ali junto ao corpo dele. Por fora, eu tentava manter a serenidade, diante do choro de quem eu precisava apoiar. Por dentro, eu sentia estar em frangalhos; minha "fuga" nos últimos dias foi cuidar de toda questão burocrática necessária. Fuga e necessidade, pois eu teria que fazê-lo. O trabalho "sujo", o trabalho difícil de lidar com os custos e burocracias da morte, enquanto se tem uma torrente de sentimentos dentro de si.
Gostaria muito de não ter aquela imagem do dia anterior, após horas de idas e vindas para buscar documentos e roupas, reconhecer o corpo antes de ser levado pela funerária. Doeu, por mais que soubesse, que já interiorizasse a situação, aquela imagem não é simples de esquecer.
Rosto de quem dormia. Sim, como dormira nos últimos dias enquanto internado esteve. Dormindo como estava no dia anterior, quando o médico já conversara comigo, ele estava em cuidados paliativos, e, ao lado dele ali, pude agradecer, dizer que sim, cumpriria a promessa que por anos ele me pedia de cuidar de tudo após sua partida. Pude dizer que o amava e amaria sempre. Quando quisesse, poderia descansar; tudo ficaria bem. E, após aqueles quase dois quilômetros até minha casa, caminhei, chorei, me conformei, me revoltei, me acalmei de novo. Sabia que precisaria de forças, pois sabia que grande era a probabilidade de ser nos próximos dias. E foi na manhã seguinte que recebi o telefonema, me pedindo para conversar com o médico, o que meu coração já sabia.
Durante uma semana ele ficou internado, e pude ficar um dia com ele desperto, antes de entrar em seu sono de quase cinco dias antes de partir. Orei com ele ali, dei de beber aos poucos, segurei a mão dele em um momento de agitação. Talvez tenha sido o último momento em que ele realmente me viu antes de dormir, e pude sorrir para ele e afagar seus cabelos.
Antes mesmo da última internação, o tempo e a senilidade foram consumindo-o. E, por meses, eu questionava o porquê de uma pessoa tão boa, que só praticou o bem e queria o bem de todos a seu redor, alguém que trabalhou tão arduamente, saindo de madrugada e só voltando no fim do dia, porque alguém assim precisaria passar por aquilo. Encontrei a resposta após sua partida: sacrifício e última lição. Meu herói mor, meu pai, quis deixar uma última lição antes de partir: uma lição de humildade.
A vida é frágil, e até aqueles que sempre parecem ter mais força, como ele, precisam de ajuda, e até aqueles que se acham incapazes de fazer algo podem ajudar. Nos últimos tempos, minha mãe o forçava a comer, partia sua comida, seu pão e o fazia comer. Minha irmã deitava num colchão no chão e o ajudava a ir ao banheiro no meio da noite, o atendia. Quanto a mim, além de todo apoio de recursos e estruturas para facilitar ou tornar menos difíceis seus dias, Deus quis e permitiu que, na última semana, ou um pouco mais, todo dia eu pudesse e tivesse que abraçá-lo para colocá-lo na cama e desejar uma boa noite. Hoje não me revolto e entendo que foi uma lição de humildade, que quero nunca esquecer.
Me consola, nesse quase último ano, ter podido dar condições de facilitar seus já breves passeios na rua, ou mesmo facilitar levá-lo ao posto de saúde para fazer seu curativo. Ele sempre gostou de caminhar, e acho que aprendi esse gosto com ele.
Lembro dos dias em que ele pedia para ir ao caixa eletrônico e depois o trazia para almoçar comigo, e ele ficava até pedir para voltar para ficar com minha mãe. Lembro dos dias de caminhada "pós-missa", em que caminhávamos até a hora de voltar para casa e almoçar ("(...). Saí pra caminhar com meu pai / Conversamos sobre coisas da vida / E tivemos um momento de paz(...)").
Os dias de domingo, os sábados em que tantas vezes eu estava aguardando o ônibus para voltar do colégio e ele passava de carro, vindo do trabalho, os fins de dia em que voltava cansado e sentava para fazer "as contas do trabalho".
Pai, dos seus últimos momentos, ficarei com sua lição de humildade e afeto de sempre. Ficarei com as lembranças de todas as décadas que antecederam, pois, se hoje sou alguém, você foi e é um dos principais responsáveis.
E modificando um pouco a letra: "(...) Pai / Você foi meu herói, NUNCA meu bandido / Hoje é mais, muito mais que um amigo / Nem você, nem ninguém tá sozinho / Você faz parte desse caminho / Que hoje eu sigo em paz (...)."