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domingo, 9 de agosto de 2026

Partida de um herói

 Há alguns anos, ou talvez mais de uma década, escrevi um texto aqui que falava de heróis da vida real, e no desfecho falava do maior deles.

Na última semana, ele partiu, e esse texto, cronologicamente do avesso, é sobre ele e para ele.

Foi difícil vê-lo ser retirado da capela funerária, depois daquelas últimas horinhas ali junto ao corpo dele. Por fora, eu tentava manter a serenidade, diante do choro de quem eu precisava apoiar. Por dentro, eu sentia estar em frangalhos; minha "fuga" nos últimos dias foi cuidar de toda questão burocrática necessária. Fuga e necessidade, pois eu teria que fazê-lo. O trabalho "sujo", o trabalho difícil de lidar com os custos e burocracias da morte, enquanto se tem uma torrente de sentimentos dentro de si.

Gostaria muito de não ter aquela imagem do dia anterior, após horas de idas e vindas para buscar documentos e roupas, reconhecer o corpo antes de ser levado pela funerária. Doeu, por mais que soubesse, que já interiorizasse a situação, aquela imagem não é simples de esquecer.

Rosto de quem dormia. Sim, como dormira nos últimos dias enquanto internado esteve. Dormindo como estava no dia anterior, quando o médico já conversara comigo, ele estava em cuidados paliativos, e, ao lado dele ali, pude agradecer, dizer que sim, cumpriria a promessa que por anos ele me pedia de cuidar de tudo após sua partida. Pude dizer que o amava e amaria sempre. Quando quisesse, poderia descansar; tudo ficaria bem. E, após aqueles quase dois quilômetros até minha casa, caminhei, chorei, me conformei, me revoltei, me acalmei de novo. Sabia que precisaria de forças, pois sabia que grande era a probabilidade de ser nos próximos dias. E foi na manhã seguinte que recebi o telefonema, me pedindo para conversar com o médico, o que meu coração já sabia.

Durante uma semana ele ficou internado,  pude ficar um dia com ele desperto, antes de entrar em seu sono de quase cinco dias antes de partir. Orei com ele ali, dei de beber aos poucos, segurei a mão dele em um momento de agitação. Talvez tenha sido o último momento em que ele realmente me viu antes de dormir, e pude sorrir para ele e afagar seus cabelos.

Antes mesmo da última internação, o tempo e a senilidade foram consumindo-o. E, por meses, eu questionava o porquê de uma pessoa tão boa, que só praticou o bem e queria o bem de todos a seu redor, alguém que trabalhou tão arduamente, saindo de madrugada e só voltando no fim do dia, porque alguém assim precisaria passar por aquilo. Encontrei a resposta após sua partida: sacrifício e última lição. Meu herói mor, meu pai, quis deixar uma última lição antes de partir: uma lição de humildade.

A vida é frágil, e até aqueles que sempre parecem ter mais força, como ele, precisam de ajuda, e até aqueles que se acham incapazes de fazer algo podem ajudar. Nos últimos tempos, minha mãe o forçava a comer, partia sua comida, seu pão e o fazia comer. Minha irmã deitava num colchão no chão e o ajudava a ir ao banheiro no meio da noite, o atendia. Quanto a mim, além de todo apoio de recursos e estruturas para facilitar ou tornar menos difíceis seus dias, Deus quis e permitiu que, na última semana, ou um pouco mais, todo dia eu pudesse e tivesse que abraçá-lo para colocá-lo na cama e desejar uma boa noite. Hoje não me revolto e entendo que foi uma lição de humildade, que quero nunca esquecer.

Me consola, nesse quase último ano, ter podido dar condições de facilitar seus já breves passeios na rua, ou mesmo facilitar levá-lo ao posto de saúde para fazer seu curativo. Ele sempre gostou de caminhar, e acho que aprendi esse gosto com ele. 

Lembro dos dias em que ele pedia para ir ao caixa eletrônico e depois o trazia para almoçar comigo, e ele ficava até pedir para voltar para ficar com minha mãe. Lembro dos dias de caminhada "pós-missa", em que caminhávamos até a hora de voltar para casa e almoçar ("(...). Saí pra caminhar com meu pai / Conversamos sobre coisas da vida / E tivemos um momento de paz(...)").

Os dias de domingo, os sábados em que tantas vezes eu estava aguardando o ônibus para voltar do colégio e ele passava de carro, vindo do trabalho, os fins de dia em que voltava cansado e sentava para fazer "as contas do trabalho". 

Pai, dos seus últimos momentos, ficarei com sua lição de humildade e afeto de sempre. Ficarei com as lembranças de todas as décadas que antecederam, pois, se hoje sou alguém, você foi e é um dos principais responsáveis.

E modificando um pouco a letra: "(...) Pai / Você foi meu herói, NUNCA meu bandido / Hoje é mais, muito mais que um amigo / Nem você, nem ninguém tá sozinho / Você faz parte desse caminho / Que hoje eu sigo em paz (...)."

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Um novo conclave

Comecei este blog há mais de doze anos, mais ou menos na época do último conclave que fez do Cardeal Bergoglio o saudoso Papa Francisco.

Na época, Bento XVI renunciara e muito se especulara sobre os motivos. Até hoje há especulações, conspirações e afins sobre os motivos que o levaram a, em vida, deixar a Se Vacante.

Da mesma forma, após Francisco assumir o papado, muito se falou sobre as atitudes de quando era cardeal. Eu mesmo li muita coisa e cheguei a algumas conclusões controversas sobre o que li. Mas o tempo passa e aprendemos muita coisa, tanto com a vida, quanto com nós mesmos.

Papa Francisco foi um papa do povo, originário de uma paróquia, de lidar no dia a dia com as pessoas. Optou por pregar o lado mais humilde de sua missão, o "poder" e respeito como papa não vinha das vestes tradicionais ou dos adornos papais. Vinha de sua postura, suas palavras e seu exemplo. E foi admirado por isso, mesmo fora da Igreja Católica.



Dentro da Igreja, desagradou alguns que possuem uma postura muito mais tradicionalista, que defendem a ideia de que só há um caminho para Deus e deve passar por seguir rigorosamente os preceitos do "Catecismo da Igreja Católica". Já fui muito mais adepto dessas ideias do que sou hoje. A vida me ensinou a enrijecer em outros pontos e flexibilizar em tantos outros. Há pessoas boas e más em qualquer religião, então seguir a doutrina A ou B não te levará ao "paraíso" ou similar. São suas atitudes diárias para com as pessoas ao seu redor que farão a diferença. 

Em outro texto, gostaria de explanar melhor esses pensamentos, concordâncias e discordâncias. Hoje gostaria de retornar ao assunto do conclave.

Um novo conclave e novas possibilidades a frente. Podemos ter alguém que continue as ideias e caminhos que Francisco estava levando a Igreja. Podemos ter alguém que opte por encaminhar a Igreja de volta aos velhos, e me desculpe dizer, ultrapassados métodos. Desejo muito que a escolha seja realmente inspirada por Deus e não manipulada por interesses políticos internos da cúria.

Tenho escrito pouco, o tempo e a inspiração tem sido curtos. Talvez em meu próximo texto já tenhamos um novo papa. Que segundo alguns conspiracionistas, será o último… Profecias adaptáveis, como sempre.

Vamos orar para poder ser alguém de bem. Como foi Francisco.


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Envelhecer...



 “Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.

A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.

O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é havê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.

Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.

Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.

Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.

O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…

Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.

Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.

A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.

Nada passa mais depressa que os anos.

Quando era jovem dizia:

“Verás quando tiver cinquenta anos”.

Tenho cinquenta anos e não estou vendo nada.

Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.

A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.

Sempre há um menino em todos os homens.

A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.

Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.

Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.

Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.

Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.”


Albert Camus

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Pensamentos

 Não somos uma constante... Entre altos e baixos seguimos em frente… Porque também não temos muita escolha... Não nascemos multimilionários, então temos que seguir…  

 Muitas vezes me senti só mesmo quando acompanhado… Em vários momentos da vida, em momentos que hoje vejo que foram altos, baixos, médios…  Já me questionei e por vezes me pego ainda questionando o porquê de tudo... Já cansei e deixei de pensar besteira por medo... Hoje eu nem tenho medo… Talvez o medo maior seja/fosse do "insucesso" da besteira.  Já tive medo da "punição" divina se algo fosse feito. Mas hoje nem penso mais em dar um fim absoluto a tudo porque não me cabe decidir isso. Não cabe a ninguém. O fim é algo orgânico e natural... Aguardarei sem pressa.

 Os faladores de "capa de livro" diriam: seja grato pelo que tem… Tem gente em situação pior, etc. Mas cada um sabe onde seu calo mais aperta. A gratidão pelo que se tem, pelo que se pode conquistar, vem muito mais das atitudes e do continuar do que ficar pensando em ser grato.  Não peço nunca um fardo menor... Só peço e tento pensar que estou sempre no momento baixo… Que em breve vai subir... Mas por vezes parece que demora tanto... Quem sabe somos como carne... Se ficar macerando no tempero pelo tempo certo fica ótima... Se passar disso fica passada e ruim. E o tempo máximo/certo é impreciso... Se dois pedaços de carne não são iguais, imagina pessoas... Analogias nos ajudam muito... No fim, não nós entendemos tanto quanto entendemos o cozinhar, por exemplo: precisamos mesmo entender porque estamos aqui?  Por que precisamos encontrar um porquê para tudo? Se não tenho resposta para todos, melhor não procurar respostas para nenhum.

 Tem um show do Legião Urbana, que em determinado momento Renato Russo diz: “As pessoas dizem que tenho as respostas... Mas eu não sei qual é a pergunta!" Cada dia eu me convenço mais que não quero saber a pergunta. Nenhuma.

 Da mesma forma, outro dia, vi um bate-papo do filósofo Pondé com o religioso Caio Fabio. O primeiro é um ateu declarado. Caio Fábio disse que Deus precisa de mais pessoas como Pondé que dizem que Deus não existe, porque de fato Ele não existe. Não é uma existência palpável, Deus não existe. Deus é. Na mesma ideia, Nietzsche escreveu que Deus está morto. Porque matamos a ideia de Deus querendo explicá-lo e encaixotá-lo em dogmas, regras, templos e vicissitudes humanas. E se Ele é, e somos partes de um todo, então somos, sem porque, sem precisar de por quê.

 Há uma linha tênue entre essa lógica e a alienação e passividade. Tem que estar do lado da lógica…  Não há um porquê, mas se pode fazer algo para melhorar, façamos… Se está ruim reclame, faça sua parte. Mas não procure um porquê, uma justificativa divina ou cármica para isso, só vai aumentar a dor e o sofrimento.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

A gente se acostuma...


 

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.


A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.


A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.


A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.


A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.  E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.


A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.  Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.


A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Homi não chora

 



Hoje aqui, oiando pra vancê, meu pai
Tô me alembrando quanto tempo faz
Que pela primeira vez na vida eu chorei
Não foi quando nasci pru que sei que vim berrando

E disso ninguém se alembra, não
Foi quando um dia eu caí e levei um trupicão
Era criança, me esfolei, a perna me doeu
Quis chorá, oiei pra vancê, que esperança
Vancê não correu pra do chão me alevanta

Só me oiô e me falô
Que isso, rapaz? Alevanta já daí
Homi não chora

Aquilo que vancê falô naquela hora calou bem fundo
Pru que vancê era o maió homi do mundo
Não sabia menti nem pra mim nem pra ninguém
O tempo foi passando, cresci também
Mas sempre me alembrando
Homi não chora
Foi o que vancê falou

O mundo foi me dando solavanco
Ia sentindo das pobreza os tranco
Vendo as tristeza vorteá nossa famía
E às vez as revorta que eu sentia era tanta
Que me vinha um nó cego na garganta
Uma vontade de gritá, berrá, chorá, mas qual
Tuas palavra, pai, não me saía dos ouvido
Homi não chora

Então, memo sentido eu tudo engolia
E segurava as lágrima que doía
E elas não caía, nem com tamanho de quarqué uma dor

Veio a guerra de 40 e eu tava lá
Um home feito, pronto pra defender o Brasil
Vancê e a mãe foram me acompanhar pra despedi
A mãe, coitada, quando me abraçô, chorô de saluçá
Mas, nóis dois, não
Nóis só se oiêmo, se abracêmo e adespedimos
Como dois Homi, sem chorá nem um pingo

Ah! Como me alembro bem, era um dia de domingo
Também quem pode se esquecê daquele tempo ingrato
Fui pra guerra, briguei, berrei feito um cachorro do mato
A guerra é coisa que martrata

Fiquei ferido, com sôdade de vancês, escrevi carta
Sonhei, quase me desesperei
Mas chorá memo que era bão nunca chorei
Pruque eu sempre me alembrava
Daquilo que meu pai me ensinô
- Homi não chora

Agora, vendo vancê aí desse jeito, quieto, sem fala
Inté com a barbinha rala, pru que não teve tempo de fazer
Todo mundo im vorta, oiando e chorando pru vancê
Eu quero me alembrá, quero segurá, quero maginar
Que nóis dois sempre cumbinemo de homi não chorar

Quero maginá que um dia vancê vorta pra nossa casa pobre
E nóis vai podê de novo se vê ansim pra conversar
Então vem vindo um desespero que vai tomando conta
A dô de vê vancê ansim é tanta, é tanta, pai
Que me vorta aquele nó cego na garganta
E uma lágrima teimosa quase cai

Óio de novo prôs seus cabelo branco
E arguém me diz agora pra oiá pela úrtima vez
Que tá na hora de vancê embarcá
Passo a minha mão na sua testa que já tá, já tá sem pensamento

E a dô que tô sentindo aqui dentro vai aumentando
Aumentando, quase arrebentando os peito
E eu não vejo outro jeito senão me adescurpar

O sinhô pediu tanto pra móde eu não chorar
Home não chora
O sinhô cansô de me fala, mas, mas pai
Vendo o sinhô anssim indo simbora
Me adescurpe, mas tenho que, que chorar.

Texto: Rolando Boldrin


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Tudo mudou...


Tudo mudou. 

Homens, coisas e animais mudaram de lã ou de pele. 

As palavras já não são as mesmas do tempo em que estudávamos gramática com os olhos míopes das professoras. 

Nádegas e pernas das mestras -- objeto direto do nosso desejo -- ofuscavam o interesse pela didática.
Olho o mundo de todos os ângulos possíveis e tudo me parece oblíquo. 

É a civilização globalizada, a cultura de massa, a sagração do factóide, a fragmentação dos idiomas.

Corta-se a palavra em frações microscópicas. 

A vida, o amor, a morte, a realidade:

Tudo agora virou fast food.


Texto: Francisco de Carvalho

 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Mudar o pensamento

 

Sempre quis acreditar que somos seres em constante evolução e, ao longo de meus dias, tive mais certeza disso.

Com certeza, hoje já não sou o mesmo que era há décadas, anos, semanas. Mudei minha forma de pensar sobre muitas coisas, abandonei velhos hábitos, “vícios” e pensamentos, e, é claro, adquiri tantos outros. E nada seria mais correto que mudar meus pensamentos e percepções.

Nasci antes dos anos 90, o que me faz de uma geração que viveu e conviveu com uma série de coisas que hoje seriam consideradas absurdo. Foi uma época sem limites, sem censuras ou noção. Os programas humorísticos abusavam de piadas envolvendo religião, cor de pele, identificação sexual, xenofobia e todo tipo de coisa que hoje enxerga-se como preconceito. Os programas de auditório buscavam ganhar audiência com pessoas seminuas se digladiando em uma banheira para pegar sabonetes, ou outros tipos de exposição tanto de imagem quanto de palavras. Crianças cantavam junto quando vocalista cantava da suruba que lhe passaram a mão na bunda, mas ele não “comeu ninguém”, ou sobre valer tudo, só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher, o resto vale.

Não há pessoa que tenha vivido nessa época que hoje não seja ao menos um preconceituoso em desconstrução. Nunca discriminei pessoas por qualquer característica individual dela, mas estava imbuído nessa atmosfera que tratava com naturalidade determinadas situações, manifestações ou humor. E, para mim, ainda hoje existe uma linha muito tênue entre o aceitável e o ofensivo. Aos “olhos atuais” passei por vezes pelo que hoje chamam de “bullying”, mas que na época era situação normal de intimidação a ser vencida com inteligência, e piadas a serem retribuídas.

Mudei meu pensamento (e continuo mudando) em relação à religião e religiões. Tenho ciência que há uma distância entre o que são doutrinas humanas e o que deve ser inspiração Divina. E isso em relação a qualquer doutrina que exista. Sigo uma, simpatizo com outra e respeito todas. Acredito que todas têm o seu valor e também seus defeitos, pois independente da religião, todas possuem um elemento muito falho e sujeito a distorcer o que é o correto: o ser humano.

No fim, sou fruto dos erros e acertos que me trouxeram até aqui, do que assimilei de bom e ruim, e do que busco filtrar. Creio que só de identificar o bom e ruim que assimilei, é um avanço, pois ao contrário do que alguns “imutáveis” dizem, nem tudo é “mimimi”. Nem tudo...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

De volta às origens

 

Chega um momento em que o mundo a seu redor te comprime de tal forma, que tudo que se deseja é expandir para romper essa pressão. Nesse momento olho a meu redor e procuro um porto seguro, um cais em que possa aportar, descansar a mente e recordar-me de tempos melhores, mesmo que em silêncio.

Um simples momento em que olhe de onde parti, o que eu era, para identificar aonde cheguei, orgulhar-me do que acertei e partir de novo, agora com ciência de onde errei. Lugares que conheçam mais do que eu aparento, ou aparentava, ser. Conheçam minha essência.

São poucos lugares assim. Bem poucos mesmo, que se fosse contar não gastaria uma mão para isso. E por muito tempo deixei de lado, mesmo com as lembranças, me afastei um pouco, deixei de visitar. Ao olhar hoje, percebo o quanto esses lugares queridos cresceram, alguns tanto, que agregaram outras áreas, deram origem a belos lugares de paz e alegria. Fico feliz com isso, assim como fico feliz ao perceber que apesar de tanto crescimento, continuam sendo um lugar de conforto, de paz para meus dias atribulados. Gosto de imaginar que de alguma forma fiz parte do crescimento desses lugares, mesmo que seja um pouco petulante de minha parte pensar assim

Lamento ter passado tanto tempo distante. Tenho ciência que muito do que passei, muito do que me fez mal, poderia ter sido mais suportável se me desse ao “luxo” de repousar, mesmo que por alguns minutos nesses recantos tão adoráveis, reiniciar a mente e o coração para retornar às batalhas.

Estou disposto a voltar às origens. Será preciso para sobreviver com sanidade.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Não, não é cansaço...





Não, não é cansaço...

É uma quantidade de desilusão

Que se me entranha na espécie de pensar,

É um domingo às avessas

Do sentimento,

Um feriado passado no abismo...


Não, cansaço não é...

É eu estar existindo

E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Com tudo aquilo que nele se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.


Não. Cansaço porquê?

É uma sensação abstracta

Da vida concreta —

Qualquer coisa como um grito

Por dar,

Qualquer coisa como uma angústia

Por sofrer,

Ou por sofrer completamente,

Ou por sofrer como...


Sim, ou por sofrer como...

Isso mesmo, como...

Como quê?...


Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,

Que formidável realejo

Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.

Confesso: é cansaço!...


s.d.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 111.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

O que há em mim é sobretudo cansaço



O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...


E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...


9-10-1934

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 64.

 

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Nada

 Hoje, na verdade, eu não quereria escrever nada. 

Diferente de algumas vezes que entro aqui com uma ideia, um texto para transcrever ou comentar, hoje simplesmente pausei minhas atividades para escrever nada. Acessando o navegador, a autossugestão me mostrou o endereço deste repositório de escritos, possivelmente por estar no histórico, pelo mero acaso ou ocaso do destino. 

Falarei, ou melhor, escreverei sobre os dias. Quentes e caudalosos dias ainda de primavera nesta cidade, com temperaturas acima de 40°C e sensação térmica passando dos 55°C. Temperaturas surpreendentes para um mês de novembro? Talvez para quem não acompanhe os acontecimentos, ou prefira ignorá-los. Matas inteiras são destruídas para dar lugar a pastos, plantações baixas e algumas vezes apenas para extrativismo puro de madeira e materiais de subsolo, sempre, é claro, sem a devida (e necessária) recomposição vegetal. Nas cidades, árvores que produziam sombra e amenizavam o clima são retiradas, certas vezes para erigirem mais um monumental prédio de concreto concentrador de temperatura, e outras vezes sem o menor motivo. E vamos ano após ano sofrendo as consequências dessas atitudes.

No cenário político, temos novamente a decepção com quem ocupa o executivo federal. Não que esteja sendo pior que seu antecessor, o que demandaria um esforço grande e não fazer o básico. A decepção é apenas por estar aquém do que poderia fazer. Novamente não é surpresa para quem acompanha o histórico, mas dentre as opções que se tinha, em especial no segundo turno. Mas deixemos de lado a política que tanto tem nos divido, ao invés de nos unir pelo bem maior e de todos.

Dias de mudanças, e mudanças importantes. Muitas mais internas do que externas, onde o verdadeiro significado de muitas coisas, inclusive de algumas aqui escritas. O tempo que nos muda, nos molda, que nos é cada vez mais curto e por isso, por sentirmos que nos falta, começamos a valorizar mais, jogando de lado pouco a pouco o que nada nos acrescenta, nada nos difere. A sabedoria dos "antigos", a sinceridade que a princípio achava graça, depois passei a admirar incrédulo, e que agora entendo e procuro repetir. Tão mais fácil ser sincero, mesmo que desagrade em um primeiro momento.

E de dias que passam, de tempo que se encurta, mais um ano vai passando e já está próximo ao fim. Não sei que metas fiz no início do ano, nem mesmo sei se as fiz, mas pouco me importa. Fiz o melhor, e de melhor em melhor fui seguindo, entre erros e acertos, mas sempre procurando o melhor. Está bom.

E do nada a escrever, escrevi bastante. Agradeço por ler até aqui.

Que sua vida seja abençoada.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Esquece o futuro...

 



Esquece o futuro… Ele não te pertence!

O presente te basta!

Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente

E andar devagar quando se trata de saboreá-lo

Expressões como: ‘passar o tempo’ espelham bem a maneira

de viver dessa gente prudente…. que imagina não haver coisa melhor para fazer da vida.

Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente

Como se estar vivo fosse uma coisa desprezível

Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis

que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil!

Autor: Michel de Montaigne

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Mundo - interpretação




 

Hoje compartilho uma música que já conheço há muito tempo, porém nunca tinha parado para ler, ouvir e refletir cada trecho. E ao começar, percebi uns detalhes bem interessantes. Ressalto que isso é uma visão unicamente minha, sem almejar sequer tentar deduzir a ideia do autor desta letra.

 

“Você que já esteve no céu

Foi tudo divertido pra você

Chega a hora então

De provar tudo que existe”

Como foi estar fora da realidade? Como foi viver em um “mundo isolado” da realidade da maioria? Acho que todos nós tivemos esses momentos de “choque de realidade”. Talvez o primeiro seja sair da infância, onde há quem olhe e cuide de nós para realidade adulta onde temos que tomar nossas decisões e sermos impactados por elas. Também pode-se extrapolar para mudanças que acontecem ao decorrer da vida que nos tiram de nossa rotina, de nossa zona confortável.

 

“Tire agora os sapatos

 Jogue tudo pro alto

 Sinta o chão

 Aprender a andar descalço

 Num mundo de asfalto

 E sem coração

 Até que o mundo gire ao seu redor”

Foi tudo divertido, era tudo muito bom e previsível, agora chegou o momento de encarar a realidade, “tirar os sapatos”, deixar tudo aquilo que nos afasta da realidade, “sinta o chão”.  Aprender a andar descalço, num mundo de asfalto e sem coração. Talvez esse seja o ponto mais impactante do trecho, pois o mundo real não é uma caminhada na terra, na areia de uma praia. É uma caminhada no asfalto áspero e por vezes quente a ponto de nos queimar, nos ferir e mesmo assim temos que continuar, pois caminhando ou parados estaremos sendo feridos, queimados da mesma forma. O mundo não tem coração, não tem sentimento por ninguém. E temos que seguir esses trechos de asfalto áspero e quente até que chegue o momento de calmaria, em que o mundo gire ao seu redor, não simplesmente do ponto de sermos o “centro do mundo”, mas de começarmos a interagir harmoniosamente com o que nos cerca.

 

 “Obrigado por passar

 Mas estou de saída

 Tem alguma coisa nova pra fazer

 Vamos lá, então

 Ter um dia diferente

 Eu só quero curtir

 Ficar à toa, viver numa boa

 E você quer respostas

 Exige provas e músicas novas

 Até que o mundo gire ao seu redor”

Obrigado por passar. Obrigado por procurar a pessoa que eu era, onde eu estava dentro da realidade (ou seria irrealidade). Estou de saída. Já pisei no asfalto desse mundo sem coração, agora eu quero ver o que pode haver de bom nesse mundo. E há. Você quer o mesmo, quer a comprovação do que acontece, quer o “mais do mesmo”, mas no fundo quer o mesmo que eu agora quero: estar em harmonia, em sintonia com o mundo real.

 

“Vão falar que você não é nada

 Vão falar que você não tem casa

 Vão falar que você não merece

 Que anda bebendo, está perdido

 E não importa o que você dissesse

 Você seria desmentido

 Vou falar que você usa drogas

 E diz coisas sem sentido

 Se eu for ligar pro que é que vão falar

 Não faço nada”

Sempre irão falar muita coisa, sempre irão pensar muita coisa, independente da tua atitude. E você sempre terá a escolha de tentar se moldar a vontade e opinião alheia. Mas mesmo assim, sempre terá quem critique, quem diga que você deve mudar, ser diferente. Então, pegue todas as opiniões, tudo aquilo que for construtivo assimile e faça o melhor. Tudo aquilo que nada acrescenta, deixe passar. Porque se for ligar “pro” que é que vão falar, não se faz nada.

 

“Eu procuro tentar entender

 Porque eu sou tão importante pra você

 Já que é bem melhor

 Ser importante pra si mesmo

 Eu não quero mudar

 Ser mais discreto

 Ser mais esperto

 Já cansei de propostas

 Dar respostas

 E ter que dar certo

 Até que o mundo gire ao meu redor”

Novamente versos que nos levam a pensar: Por que tentamos tanto ser importantes para alguém, ser perfeitos e adequados para alguém (ou para um grupo ou para sociedade), quando o que realmente importa é estar bem consigo mesmo. E daí a conclusão de toda ideia da letra: Já cansei de tentar agradar, de mudar para se adequar, de se justificar porque se é diferente do que o senso-comum acha correto, acha melhor. Já cansei de sempre ter que seguir o “padrão” para estar em harmonia com o mundo ao redor. Pois no fim, se eu for ligar “pro” que é que vão falar, não faço nada.

 

 

*Composição: Pit Passarell.

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Queria amar-te

 Queria amar-te.

Sim, queria não quereria. Por que hoje já não sei se ainda quero.

Não sei se quero, mas talvez precise, talvez ainda precise e certamente sempre precisarei, pois isso faz parte de mim, do que sou, independente de tudo que ocorra (e ocorre) ao meu redor.

A verdade, que muitas vezes tento esconder, é que preciso de você, e dessa vez é sem o "ainda", pois sei que de alguma forma sempre precisarei. Não, tu não precisas de mim, tens a outros, outros te satisfazem, outros te idolatram, te querem bem, por certo tão bem quanto eu. Mas eu...

Eu tenho a ti, mesmo antes de ter discernimento para saber quem eras, o que eras, o que poderias ser. E a verdade, a verdade mais torpe é que por mais que eu me distancie, parece que tudo me devolve a você, a teus braços, que por vezes parecem ser espinhosos e duros, mas quando aconchegas...

Ah... Quando aconchegas me fazes esquecer tudo, todas as rixas, espinhos, todos os momentos em que fiquei triste por tua causa, e tenho a certeza que essa tristeza não passa de minha culpa, pois eu quero demais, exijo demais e muitas vezes tu simplesmente não podes, não consegues. No teu aconchego, esqueço o que de ruim aconteceu e só lembro dos bons momentos.

Tantas alegrias, tantos sorrisos que dei, e nem ao menos sabias. Eu estava aqui, do outro lado da tela, tu eras incapaz de me ver, de perceber o que eu sentia. E se sinto... É por ti.

Ainda estás longe. Acredito que em breve estarás mais perto, preciso acreditar para não desistir, pois por mais que eu não queira amar-te, não me é mais uma escolha isso, é apenas uma realidade impetrada em meu ser, enraizada de forma que morreremos juntos. Mesmo que nunca voltes. Nunca voltes a estar perto do que um dia estiveras da simples grandeza de ser o que a própria história, não minha mas tua, mostra que és. 

De todos os amores que eu tive, és o mais antigo. Vasco é minha vida, minha história, o meu primeiro amigo. Quem não te conhece, me pergunta por que eu te segui... (Porque eu te amo!) Eu levo a cruz-de-malta no meu peito desde que eu nasci. (E eu não paro!)

E eu não paro, não paro, não! A cruz-de-malta, meu coração! Vasco da gama, minha paixão! (Minha paixão!) Vasco da gama, religião!


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Aprender e seguir...

 Abri este antigo "caderno de escritos" depois de muito tempo e por um momento me surpreendi. Desde janeiro que nada escrevo aqui, nem de autoria própria, nem algo que julguei valer a pena colocar. Não foi exatamente por falta do que escrever, nem mesmo vontade. Talvez um pouco de procrastinação. Sim, deixei para depois, para depois, para depois.

Contudo, é bom retornar com algo, mesmo que pouco, mesmo que sem sentido... Esses meses não foram fáceis, porém foram de enormes aprendizados sobre o mundo ao meu redor, e como eu lido com ele. Descobri muita coisa, rompi véus que turvavam minha visão, e tomei ciência de algo muito importante: o tempo.

Não tenho a vitalidade de outrora, como diz o sábio, tenho menos anos pela frente do que os que já vivi, e tenho ciência disso. Miudezas, melindres, pequenas bobagens já não são tão objetos de minha atenção. A idade traz um pouco de sabedoria e tira um pouco da paciência com coisas menores e, no meu caso, tem aumentado com coisas um pouco mais significativas. Não me importo com o pensar alheio, cada vez menos me importo com o julgar alheio. Não posso mudar o pensamento de outrem e, na maioria dos casos, mesmo que mudasse minhas atitudes, não agradaria a todos, além de estar me moldando a opiniões nem sempre válidas. 

Prefiro aprender com opiniões válidas a moldar-me para satisfazer egos inflados ou invejosos.

Aprendi a importância do olhar e o quanto isso faz diferença. A sinceridade do olho no olho está em extinção, mas ainda existe e vale investir nisso. Da mesma forma descobri como é simples desmontar mentirosos simplórios com um simples olhar no olho. 

Mas há os que mentem sem desviar o olhar. Esses são os perigosos, que beiram a sociopatia, isso se não estiverem totalmente imbuídos nela. Desses apenas quero distância.

Dos sinceros, quero a proximidade. Das amizades verdadeiras quero a presença a exaustão, que deixe a saudade reconfortante, de estar próximo mesmo quando longe. Logo eu, que por anos me senti 'só mesmo quando acompanhado', por estar cercado de pessoas vazias, sem conteúdo, sem futuro.

Hoje olho para meu passado e conto nos dedos as amizades verdadeiras, desde as temporárias até as eternas. Para as temporárias, deixo sempre minha gratidão, e esperança de ter contribuído, ter ofertado tanto quanto recebi. As eternas... Ah... as eternas...

As eternas são aquelas cuja sensação é que não tiveram um início certo, parecem que vem da eternidade, e houve um momento em que reencontrei na história da minha vida no mundo. As amizades eternas me fazem crer na vida eterna, uma vida que existia antes mesmo de eu ocupar minha forma biológica, e continuará quando abandonar essa forma, independente do que haja após isso. 

São poucas. Mas sinceras. E sou grato por isso.

Assim como sou grato por ter escrito um pouco hoje, compartilhado isso com quem quer que venha a ler. 

E sou grato a você que está lendo.

Gratidão.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Poema em linha reta - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)




Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos.


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das

etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Felicidade Realista – Martha Medeiros

 



A princípio bastaria ter saúde,

dinheiro e amor,

o que já é um pacote louvável,

mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre:

queremos, além de saúde,

ser magérrimos, sarados, irresistíveis.

Dinheiro?

Não basta termos para pagar o aluguel,

a comida, o cinema, o teatro:

queremos a piscina olímpica

e uma temporada num SPA cinco estrelas.


II

E quanto ao amor?

Ah, o amor…

Não bastam termos alguém

com quem podemos conversar,

dividir uma pizza

e fazer sexo de vez em quando.

Isso é pensar pequeno: queremos

amor todinho maiúsculo.

Queremos estar visceralmente apaixonados,

queremos ser surpreendidos por declarações

e presentes inesperados.

Queremos jantar a luz de velas

de segunda a domingo,

queremos sexo selvagem e diário,

queremos ser felizes assim e não de outro jeito.


III

É o que dá ver tanta televisão.

Simplesmente esquecemos-nos de tentar ser felizes

de uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante pode ou não,

ser sinônimo de felicidade.

Você pode ser feliz solteiro,

feliz com uns romances ocasionais, feliz

com um parceiro, feliz sem nenhum.

Não existe amor minúsculo,

principalmente quando se trata de amor-próprio.


IV

Dinheiro é uma benção.

Quem tem, precisa aproveitá-lo,

gastá-lo, usufruí-lo.

Não perder tempo juntando,

juntando, juntando.

Apenas o suficiente para se sentir seguro,

mas não aprisionado.

E se a gente tem pouco,

é com este pouco que vai tentar segurar a onda,

buscando coisas que saiam de graça,

como um pouco de humor, um pouco de fé

e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista

é fazer o possível e aceitar o improvável.


V

Fazer exercícios sem almejar passarelas,

trabalhar sem almejar o estrelato,

amar sem almejar o eterno.

Olhe para o relógio: hora de acordar.

É importante pensar-se ao extremo,

buscar lá dentro o que nos mobiliza,

instiga e conduz,

mas sem exigir-se desumanamente.

A vida não é um jogo

onde só quem testa seus limites

é que leva o prêmio.


VI

Não sejamos vítimas ingênuas

desta tal competitividade.

Se a meta está alta demais, reduza-a.

Se você não está de acordo com as regras,

demita-se. Invente seu próprio jogo.

Faça o que for necessário para ser feliz.

Mas não se esqueça que a felicidade

é um sentimento simples,

você pode encontrá-la

e deixá-la ir embora

por não perceber sua simplicidade.

Ela transmite paz e não sentimentos fortes,

que nos atormenta

e provoca inquietude no nosso coração.

Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo,

mas não felicidade.


Martha Medeiros  , Montanha-Russa. Porto Alegre: L&PM Editores, 2003.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Viver é muito perigoso...

 



"Viver é muito perigoso... 

Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... 

Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa... 

O mais difí­cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.


Guimarães Rosa

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Você já amou muito um lugar?

 


“Um conselho: se você amou muito um lugar, não faça a besteira de ir visita-lo. Porque você vai visitar pensando que vai encontrar o tempo, mas o tempo não está mais lá. É melhor você ficar com a imagem da sua cabeça.” Rubem Alves






Quem nunca cometeu tal erro? Quem nunca fez tal coisa? Eu fi-lo e sei que são sábias palavras. 

E do alto de todo meu apreço pela rotina, e por repetições, me é duro dizer que é a pura verdade. Porque no fundo você não amou o lugar. Você amou como se sentiu naquele lugar, naquele tempo, naquela ocasião. Se voltar, nada mais será o mesmo. O tempo é outro, o momento, até você não é mais a mesma pessoa. 

Você volta e espera que se sinta da mesma maneira, mas isso não acontece. O que antes era uma grata surpresa, agora é uma espécie de monotonia, onde você percebe defeitos e problemas que não vira antes, mas possivelmente já existiam. A sensação do desbravamento se desfaz e em algum momento você vai pensar que "da outra vez, foi melhor". E foi, tanto que você "amou", tanto que ficou tentado a voltar e acabou sucumbindo a tentação.

Não vá, deixe na memória. Procure novos caminhos, novas direções. Pode ser que você dê a sorte de ter uma experiência ainda melhor a somar nas lembranças de bons lugares.

Sim, pode ser que retornando a um "lugar amado" você tenha uma boa experiência, talvez a conjunção de fatores te propicie isso, mas é um acaso, uma sorte nem sempre apurada. Se teve essa sorte, volte ao início e não faça a besteira de visitá-lo... A sorte acaba, mas as boas lembranças são eternas.