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quarta-feira, 9 de abril de 2014

O perigo do "gênero" em educação

Por motivos estratégicos, por enquanto os ideólogos de gênero não falam em defender o incesto e a pedofilia, que Shulamith Firestone defendeu com tanta crueza. Concentram-se em exaltar o homossexualismo.
Por Pe. Luíz Carlos Lodi da Cruz, presidente do Pró-Vida de Anápolis e Doutor em Bio-ética.

A ideologia de “gênero” prega, em matéria sexual, a “liberdade” e a “igualdade”. A “liberdade”, porém, é entendida como o direito de praticar os atos mais abomináveis. E a “igualdade” é vista como a massificação do ser humano, de modo a nivelar todas as diferenças naturais que existem entre o homem e a mulher.
A origem da ideologia de gênero é marxista. Para Marx, o motor da história é a luta de classes. E a primeira luta ocorre no seio da família. Em seu livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), Engels escreveu:
Em um velho manuscrito não publicado, escrito por Marx e por mim em 1846, encontro as palavras: ‘A primeira divisão de trabalho é aquela entre homem e mulher para a propagação dos filhos’. E hoje posso acrescentar: A primeira oposição de classe que aparece na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher unidos em matrimônio monogâmico, e a primeira opressão de classe coincide com a do sexo feminino pelo sexo masculino.
Dentro da família, há uma segunda opressão – a dos filhos pelos pais – que Marx e Engels, no Manifesto Comunista (1848), pretendem abolir: “Censurai-nos por querer abolir a exploração das crianças por seus próprios pais? Confessamos esse crime”.     
Fiel à sua raiz marxista, a ideologia de gênero pretende que, em educação, os pais não tenham nenhum controle sobre os filhos. Nas escolas, as crianças aprenderão que não há uma identidade masculina nem uma feminina, que homem e mulher não são complementares, que não há uma vocação própria para cada um dos sexos e, finalmente, que tudo é permitido em termos de prática sexual.
Note-se que a doutrina marxista não se contenta com melhorias para a classe proletária. Ela considera injusta a simples existência de classes. Após a revolução proletária não haverá mais o “proletário” nem o “burguês”. A felicidade virá em uma sociedade sem classes – o comunismo – onde tudo será de todos.
De modo análogo, a feminista radical Shulamith Firestone (1945-2012), em seu livro A dialética do sexo (1970), não se contenta em acabar com os privilégios dos homens em relação às mulheres, mas com a própria distinção entre os sexos. O fato de haver “homens” e “mulheres” é, por si só, inadmissível.
Como a meta da revolução socialista foi não somente a eliminação do privilégio da classe econômica, mas a eliminação da própria classe econômica, assim a meta da revolução feminista deve ser não apenas a eliminação do privilégiomasculino, mas a eliminação da própria distinção de sexo; as diferenças genitais entre seres humanos não importariam mais culturalmente.
Se os sexos estão destinados a desaparecer, deverão desaparecer também todas as proibições sexuais, como a do incesto e a da pedofilia. Diz Firestone:
O tabu do incesto é necessário agora apenas para preservar a família; então, se nós acabarmos com a família, na verdade acabaremos com as repressões que moldam a sexualidade em formas específicas.
Os tabus do sexo entre adulto/criança e do sexo homossexual desapareceriam, assim como as amizades não sexuais [...] Todos os relacionamentos estreitos incluiriam o físico.
Por motivos estratégicos, por enquanto os ideólogos de gênero não falam em defender o incesto e a pedofilia, que Firestone defende com tanta crueza. Concentram-se em exaltar o homossexualismo.
Ora, não é preciso uma inteligência extraordinária para perceber que os atos de homossexualismo são antinaturais. Nas diversas espécies, o sexo se caracteriza por três notas: a dualidade, acomplementaridade e a fecundidade.
Dualidade: há animais assexuados, como a ameba, que não têm sexo. Os animais sexuados, porém, têm necessariamente dois sexos. Não há uma espécie em que esteja presente apenas o sexo masculino ou apenas o feminino.
Complementaridade: os dois sexos são complementares entre si. E isso não se refere apenas aos órgãos de acasalamento e às células germinativas (gametas) de cada sexo. A fisiologia e a psicologia masculinas encontram na fisiologia e psicologia femininas seu complemento natural e vice-versa.
Fecundidade: a união de dois indivíduos de sexo oposto é apta a produzir um novo indivíduo da mesma espécie.
Percebe-se que nada disso está presente na conjunção carnal entre dois homens ou entre duas mulheres. Falta a dualidade, a complementaridade e a fecundidade próprias do verdadeiro ato sexual. Os atos de homossexualismo são uma grosseiríssima caricatura da união conjugal, tal como foi querida por Deus e inscrita na natureza.
A ideologia de gênero pretende, porém, obrigar as crianças a aceitar com naturalidade aquilo que é antinatural. Tal ideologia distingue o sexo, que é um dado biológico, do gênero, que é uma mera construção social. Gêneros, segundo essa doutrina, são papéis atribuídos pela sociedade a cada sexo. Se as meninas brincam de boneca, não é porque tenham vocação natural à maternidade, mas por simples convenção social. Embora só as mulheres possam ficar grávidas e amamentar as crianças e embora o choro do recém-nascido estimule a produção do leite materno, a ideologia de gênero insiste em dizer que a função de cuidar de bebês foi arbitrariamente atribuída às mulheres. E mais: se as mulheres só se casam com homens e os homens só se casam com mulheres, isso não se deve a uma lei da natureza, mas a uma imposição da sociedade (a “heteronormatividade”). O papel (gênero) de mãe e esposa que a sociedade impôs à mulher pode ser “desconstruído” quando ela decide, por exemplo, fazer um aborto ou “casar-se” com outra mulher.
Em 2010, o Ministério da Saúde publicou a cartilha Diversidades sexuais com o objetivo único de inculcar nos adolescentes e jovens a ideologia de gênero. A eles é ensinado que o homossexualismo é não uma desorientação, mas uma “orientação sexual”. E mais: que tal “orientação” é natural e espontânea, e não depende da escolha da pessoa!
Hoje já se sabe que ser gay ou lésbica não é uma opção, porque não implica uma escolha. O (a) homossexual não opta por ser homossexual, assim como o (a) heterossexual não escolhe ser heterossexual, o mesmo acontecendo com os (as) bissexuais. É uma característica natural e espontânea.
Essa afirmação, apresentada como certeza (“hoje já se sabe...”) é duramente atacada pelo psicólogo holandês Gerard Aardweg, especialista em comportamento homossexual:
O infantilismo do complexo homossexual tem geralmente sua origem na adolescência, e em grau menor na primeira infância. [...]. Não é, porém, durante a primeira infância que o destino do homossexual é selado, como muitas vezes defendem os homossexuais emancipistas, entre outros. Essa teoria ajuda a justificar uma doutrinação das crianças na educação sexual tal como: ‘Alguns de vocês são assim e devem viver de acordo com sua natureza’.
Ora, não há uma “natureza homossexual”, pois o homossexualismo é, em sua essência, um vício contra a natureza. Isso, porém, os ideólogos de gênero proíbem que se diga. Para eles, somente os preconceituosos se opõem às práticas homossexuais. Tal “preconceito”, que eles desejam que se torne um crime a ser punido, recebe o nome pejorativo de “homofobia”.
O Projeto de Lei 8035/2010, que aprova o Plano Nacional de Educação (PNE) para o decênio 2011-2020, trazia termos próprios da ideologia de gênero: “igualdade de gênero e de orientação sexual”, “preconceito e discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero”. O Senado Federal, porém, em dezembro de 2013, aprovou um substitutivo (PLC 103/2012) que eliminou toda essa linguagem ideológica e ainda acrescentou como diretriz do Plano a “formação para o trabalho e a cidadania, com ênfase nos valores morais e éticos em que se fundamenta a sociedade” (art. 2º, V). De volta à Câmara, o projeto agora enfrenta a fúria dos deputados do PT e seus aliados, que pretendem retirar os “valores éticos e morais” e reintroduzir o “gênero” no PNE, a fim de dar uma base legal à ideologia que o governo já vem ensinando nas escolas.
Nem todos compreendem a importância e a extensão do problema. A vitória da ideologia de gênero significaria a permissão de toda perversão sexual (incluindo o incesto e a pedofilia), a incriminação de qualquer oposição ao homossexualismo (crime de “homofobia”), a perda do controle dos pais sobre a educação dos filhos, a extinção da família e a transformação da sociedade em uma massa informe, apta a ser dominada por regimes totalitários.
É a própria família brasileira que está em jogo.
QUE PODEMOS FAZER?
1) LIGUE GRATUITAMENTE PARA O DISQUE CÂMARA 0800 619 619. Tecle "9"
Desejaria enviar uma mensagem para todos os deputados membros da Comissão Especial destinada a votar o Plano Nacional de Educação (Projeto de Lei 8035/2010):
Solicito a Vossa Excelência que mantenha longe do Plano Nacional de Educação as expressões "gênero", "igualdade de gênero" e "orientação sexual". Tal linguagem  não é inócua, mas é própria da ideologia de gênero, que tem por fim destruir a família e massificar o ser humano, nivelando as diferenças naturais entre o homem e a mulher. As crianças e os pais agradecem.
2) ASSINE A PETIÇÃO CONTRA A IDEOLOGIA DE GÊNERO


terça-feira, 8 de abril de 2014

Mudanças nas postagens

Uma das principais dificuldades que venho tendo desde que comecei a escrever no blog é a constância. Gostaria de ter tempo para escrever diariamente, mas nem sempre consigo, e no fim acabo alternando entre períodos de escrita diária e outros de estiagem.

Isso é péssimo, pois não gera uma rotina em vocês, caros leitores. Tem existido dias que vocês entram e não existem novidades, em outros, existem várias "inéditas". Isso é ruim para vocês e no fim para mim também.

Por isso a partir de hoje, as postagens serão semanais, salvo qualquer eventualidade, existirá uma postagem nova toda quarta-feira pela manhã, e também em algumas datas especiais.

Agradeço a compreensão de todos vocês, e não deixem de acompanhar as ideias desse escritor errante.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Cotas, marchas e afins

Desde meu tempo de criança, ouço vários comentários sobre a luta em nosso país contra o preconceito, seja ele de cor de pele (somos todos a mesma raça), condição sócio-econômica, gênero, religião e mais recentemente, opção sexual.

Surpreendentemente o tempo passou e a luta não evoluiu, muito pelo contrário. Em nome do combate ao preconceito, tenho visto mais e mais segregação, mais afastamento e distinção entre as pessoas, entre os iguais.

Uma das "armas" inventadas para tentar combater a distinção foi a criação de cotas. E virou um festival: cotas para negros, pardos; cotas para quem é de escola pública; cotas para "pobres"... E das universidades, passou para os concursos e agora discute-se até para política também. E os iguais passaram a ser segregados em grupos. Reserva de vagas para uns e o restante para quem (ainda) não se encaixa nas cotas criadas.

Sim, caro leitor, você está certo, sou contra as cotas. Criar cotas é uma admissão burra de que parte das pessoas não é capaz de concorrer com as outras, por isso existe essa necessidade de ter cotas. Vou pegar como exemplo as cotas para universidades. Por acaso cor de pele diferencia na capacidade cerebral de alguém? Pela pessoa ter a pele mais ou menos pálida, mais ou menos morena, diferencia o nível de preparação, o nível de conhecimento para passar no vestibular? Cotas para escolas públicas é uma admissão do governo de que ele não dá ensino de qualidade em suas escolas, é admitir que os alunos saem da escola sem o conhecimento necessário. Por que em vez de cotas, não melhoram o nível das escolas, com uma infraestrutura melhor, professores preparados e adequadamente renumerados, de forma a que seus alunos possa competir com alunos de escolas privadas?

Respondo o porquê das cotas: é mais fácil. É mais fácil você segregar, você reservar vagas do que garantir um ensino de qualidade nas escolas. Do mesmo modo, é mais fácil dar o peixe que ensinar a pescar, então temos cotas, bolsa-família, bolsa disso, bolsa daquilo. Cumprir um item constitucional como dar educação é complicado, não dá retorno imediato, leva tempo para que se perceba a evolução, vai além de um mandato. Resumindo não dá votos.

Dar direitos iguais a pobres e ricos. Punir adequadamente a discriminação é difícil, e cada vez mais impossível, pois o próprio governo, com a justificativa de "combater" , está aumentando mais a segregação, separando os iguais. Dando benefícios diferentes a pessoas que são iguais, seres humanos da mesma forma, só atiça as diferenças.

Outro dia estava vendo um programa antigo na TV (Chico Total), e fico imaginando: se fosse hoje, ele poderia falar assim? Poderia ter esse quadro? Com certeza Justo Veríssimo não poderia dizer :"Quero que pobre se exploda!". Dr Logulo e Dr Rossetti não poderiam fazer suas insinuações homo afetivas. E o "Café Bola Branca", onde gente branca não vem, "não vê o criouléu", como a música diz? Impossível! Puro preconceito! Contra pobres, homossexuais e negros!

Na época, tudo era encarado naturalmente, como brincadeira, como humor. Hoje seria uma afronta, criticada em todas as redes sociais e afins. Será que realmente evoluímos? Eu acho que não, na verdade, involuímos.

Sou um pouco mais radical quanto a isso. Cotas são um erro. Mas também não concordo muito em termos um "Dia da consciência Negra" por exemplo. É fato histórico que com a escravidão e os tempos que se seguiram, a cor da pele era um determinante para ser tratado diferente. Mas se hoje temos a real e verdadeira consciência que somos todos iguais, por que não o dia ser da consciência humana? Somos todos iguais e devemos pensar assim.

Da mesma linha vem as marchas, e uma certa irritação que tem havido com relação a opção sexual. Existem marchas do orgulho "gay", mas se eu disser que tenho orgulho de não ser, ou seja tenho orgulho de ser heterossexual, estarei sendo preconceituoso? Espero que não seja visto assim, pois em muitos casos é o que tem parecido, só o fato de não ser é encarado por algumas pessoas como preconceito.

Sem querer entrar em mais esse mérito, quero apenas deixar minha opinião: Sou contra qualquer tipo de preconceito, assim como sou contra qualquer tipo de segregação, mesmo que com a justificativa errônea de diminuir o preconceito.

Fiquem a vontade para opinar, principalmente argumentar. Todo comentário será publicado, desde que não seja agressivo ou ofensivo a quem tenha ideia contrária a sua.



segunda-feira, 24 de março de 2014

A Casa - Sala 5

Este texto é o sexto texto da série que começa com:

http://erranteescritor.blogspot.com.br/2014/03/a-casa-introducao.html

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Caminhando em direção a porta, ficava imaginando o que me esperava. Já não tinha a curiosidade das primeiras salas, nem a ansiedade de outras. Havia revivido momentos, vivido outros que não tinham acontecido e tive a chance de vivenciar com a maturidade que hoje tenho.

Eu tinha apenas mais uma cápsula. Essa deveria ser a última porta, uma última sala. Era hora de abrir a porta, ver o que me esperava e seguir adiante. Não passava pela minha mente o que poderia haver ali.

Abri, e estava na porta de um shopping perto de casa. O telefone toca:

- Me atrasei, mas já estou chegando.

Por alguns momentos fiquei feliz por ouvir aquela voz. Então me dei conta que dia era aquele. Meu Deus! Não pode ser! Não! Eu não posso viver esse dia de novo por mais especial que tenha sido. Não posso correr o risco de estragar esse dia, nem de alterar uma linha sequer dele. Tomei imediatamente a pílula, e dessa vez não fui diretamente para sala de antes. Fiquei como espectador da cena. Não sei se alguém ali conseguia me ver, mas mesmo assim me escondi e fiquei observando a chegada dela, e o momento que a encontrei, e juntos passamos entramos no shopping. É. Foi um dia bom, que de certa forma mudou minha história. Não precisava mudar nada, nem quereria mudar nada. Assim como no fim nada mudei nada desde que entrei naquela casa.

Uma leve tontura e estava de volta àquela casa, agora no salão inicial onde aquela simpática senhora me aguardava.

- Fez um belo passeio?

- Sim. Até por onde não precisava.

- Acontece com todos. Sempre tem alguns lugares que não entendemos porque, mas nos é útil ver.

Respondi apenas com um sorriso e agradeci a oportunidade de relembrar, de reviver, de ter a chance de dizer o que nunca disse, de ter a certeza que eu fiz o melhor que poderia naquele momento, para o que eu sabia, para quem eu era. Ela sorriu de volta e me disse que ficasse a vontade, ela tinha alguns afazeres para terminar.

Era hora de partir, não sabia quantas horas se passaram desde que ali entrara. Já devia ter passado da hora de ir, retornar a meu lar, a minha vida tão abençoada.

Saí pela porta frontal, e quando estava na rua olhei para trás. A casa bela e vistosa, de entrada estilo antiga, ainda estava lá, só que com aspecto de abandonada, com madeiras pregadas em suas janelas e portas.Será que eu havia sonhado com tudo aquilo? Será que tudo se passara apenas na minha imaginação?

Um papel foi trazido pelo vento e caiu à minha frente. Peguei o papel e li:

Dê uma nova chance aos pensamentos. Descubra outras decisões. Tente.

E no verso estava rabiscado:

Você conseguiu.

Mesmo que ninguém acredite, sei que aquilo foi real, ao menos dentro de mim.

Hora de voltar para casa, retomar minha vida, agora com mais certeza ainda que vivi tudo que precisava viver. Só queria chegar em casa, abraçar minha esposa, e viver cada dia na certeza que só teria uma chance de fazer o que deveria ser feito...

Nunca mais passei em frente aquela casa, nunca mais vi as pessoas que estavam naquela fila. Talvez a casa tenha sido demolida, tenha sido feito um prédio em seu local. Talvez aquelas pessoas tenham seguido seu rumo longe dali... Seguiram adiante, como o mundo seguiu.

A Casa - Sala 4

Este texto é o quinto texto da série que começa com:

http://erranteescritor.blogspot.com.br/2014/03/a-casa-introducao.html

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Abro a porta, e novamente encaro aquela luz que quase me cega. De repente tudo escuro. Estou em uma sala de cinema. Quando, onde e por que estou ali?

Mal me lembro de ter visto o filme que está passando, olho ao redor e na escuridão não consigo enxergar nada. Meus olhos ainda estão cegados pela luz da porta que atravessara. Alguém encosta em mim e diz:

-Vamos. O filme acabou.

Demoro um pouco tentando focalizar em quem falava comigo. Me dou conta de quem é, e começo a me lembrar desse dia. Outrora eu quisera que esse dia terminasse diferente, talvez por isso estivesse ali. Mas se dependesse de minha atual vontade e iniciativa, nada mudaria. De qualquer forma, ficaria mais um pouco ali, antes de tomar aquela pílula e retornar "a meu tempo".

Saímos, fomos até a praça de alimentação e compramos um milk shake... Quero dizer, eu não comprei, e isso já altera um pouco a história como eu me lembrava. Na época eu tomara um, eu podia, hoje não posso mais, e nessa dúvida se me faria mal ou não, achei melhor não tomar. Dane-se o efeito borboleta do milk shake.

Fiquei em silêncio tomando meu suco, quando veio a pergunta:

-O que você acha de esticar a tarde e continuar o que começou no fim do filme?

Por alguns momentos só tomei um gole de suco, sem querer parecer surpreso. A princípio não me lembrava a que  se referia, afinal tudo ocorrera muitos anos antes. Algo já mudara, essa pergunta nunca fora feita. E se tivesse sido feita na época? É provável que tivesse concordado, houve um tempo que realmente eu cria que faltara algo se não naquele dia, naquela época. Se ao contrário de outros fatos, esse não mudaria muita coisa.,  o tempo passara, o mundo seguira adiante. Sabia que seria difícil explicar, com certeza não seria entendido se explicasse, então só disse:

-Por mais que um dia eu quisesse, deixemos estar por enquanto.

Por enquanto. Eu sabia muito bem que era um "por enquanto" definitivamente sempre. De certa forma, eu acho que sei porque estava ali. Não era por causa dessa decisão, por essa resposta. Era para me despedir. Tinha que aproveitar a chance.

- Não estou me sentindo bem... Acho que o suco caiu mal.

Do sorriso que estava veio a cara de preocupação, e me perguntou se eu quereria ir embora. Disse que talvez fosse melhor, mas antes precisa falar algo. Assim que falei isso tudo a meu redor girou e me vi transportado para outro lugar, em outro dia, com a mesma pessoa a minha frente.

-Você está bem?

Disse que sim, e sorri. É. Esse é o momento certo, é para isso que "a sala" me trouxe ali. Daquele dia eu me lembro e lembro o que aconteceu. E deve seguir como seguiu, a diferença é que agora eu teria chance de me despedir.

- Obrigado por sua preocupação, estou bem. Ótimo te ver, conversar contigo mais uma vez. Gosto de encarar cada conversa como fosse a última, não sabemos o que o futuro nos reserva (ok, eu sabia...). Então o que tenho a te dizer é obrigado por cada palavra, cada minuto dedicado. Gostaria que essa não fosse uma despedida, mas pode ser que seja, não é mesmo? Então, saiba que desejo que você seja muito feliz.

Ela se emocionou e me abraçou. E eu, engoli a pílula. E em alguns segundos estava fora dali. Assim era certo, aquele dia tinha que terminar como terminou. Ambos tinham que ser como foram. Mas faltava dizer aquilo, nunca havia me despedido porque não imaginava que seria a última vez que a via. O mundo seguira adiante, ela seguira o caminho dela e eu nunca tinha dito um obrigado, um Deus te acompanhe.

Sentado na cadeira, olhava para minha mão. Uma pílula, bala, seja lá o que for. Aquela devia ser a última porta. Respirei fundo abri a porta....



quinta-feira, 20 de março de 2014

A Casa - Sala 3

Este texto é o quarto texto da série que começa com:

http://erranteescritor.blogspot.com.br/2014/03/a-casa-introducao.html

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Tomo coragem e sem muito pensar abro a porta atravessando a luz cegante que sempre vem em seguida. Por alguns segundos perco o equilíbrio e por pouco não caio. Estou caminhando na ciclovia do Maracanã, começando a subir a rampa do metro. Recupero o equilíbrio e paro um pouco, involuntariamente descendo.

Que dia é esse? Por que estou ali?

Minutos depois me dou conta que já passei por aquele dia. A diferença é que nem pensei em nada, fui no impulso, subi aquela rampa e encarei o poderia vir... E depois, passei dias me arrependendo. Era minha chance agora de fazer diferente, sem omissões, da maneira certa e no momento certo. Chego a retornar a ciclovia e caminhar de volta para onde eu morava na época. Sabia que se voltasse, mataria aquela tarde e talvez...

Talvez um "efeito borboleta" acontecesse. Pode ser que o arrependimento me fez evitar situações piores. O aprendizado pode ter me livrado de enrascadas, me feito crescer, me possibilitado chegar a vida que tenho hoje. Apesar de tudo, sou feliz, não tenho nada a reclamar da vida que tenho... E se...

Não. Por mais que um dia eu tenha desejado que aquele dia não acontecesse daquela  maneira, não poderia arriscar-me a perder tudo que tive daí para frente. Aprendi a superar, a consertar e precisei passar por isso.

Retomei a subida da rampa, tomei o comprimido e pensei : Sei no que vai dar. Que seja.

Pisquei os olhos e estava novamente na sala, sentado na cadeira. Pela primeira vez desde que entrara naquela casa, tive realmente a chance de mudar algo que um dia eu quisera de verdade. Mas tive medo de alterar, medo do que aquilo poderia mudar em mim e em minha vida como um todo.  Tudo aconteceu como deveria, para que eu pudesse ser o que sou hoje....

Seguir adiante, sempre digo isso, o mundo seguiu e nós também devemos seguir. Hora de levantar e ver o que me esperava atrás dessa nova porta...


quarta-feira, 19 de março de 2014

A Casa - Sala 2

Este texto é o terceiro texto da série que começa com:

http://erranteescritor.blogspot.com.br/2014/03/a-casa-introducao.html

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Giro calmamente a maçaneta. Uma grande luz cega por uns instantes meus olhos, e um cheiro de ar puro e grama molhada entra por minhas narinas. Agora o sol bate em meu rosto,  olho ao redor e reconheço o lugar que já estivera tantas vezes.

Ouço uma voz que parece falar comigo, olho para o lado e vejo alguém que há muito não via, e me dou conta de que dia é esse. Sim, já vivi esse dia, e acho que involuntariamente sorri.

-Agora sim. Você parecia aéreo, parece que nem ouviu eu falando.

E realmente não ouvira mesmo. Pelo menos não "nessa nova realidade". Peço desculpas e que falasse de novo, enquanto em minha mente o único pensamento que passava era em que momento daquele dia eu havia parado. Por mais que tudo aquilo tivesse ocorrido de verdade, não me sentiria bem de repetir certas coisas.

- Então, você não me respondeu. O que prefere?

A pergunta. Lembro bem dessa pergunta, dessa escolha. Não fazia ideia porque aquela porta me trouxera exatamente ali, nunca duvidei que fizera a escolha certa, se vivesse aquele momento mil vezes as mil vezes a escolha seria a mesma.

- Você me conhece o suficiente para saber que não trocaria sua amizade por nenhum momento. - respondi

Com um sorriso, me disse que sabia que essa seria minha resposta, que eu poderia ter até ambos.

Mas eu sabia que não, assim como sabia que aquela seria a última vez que nos víamos. Era o justo, era o certo e assim devia continuar a ser. O que ocorreu depois dali devia seguir seu fluxo, eu não poderia mais correr o risco de estragar. Era hora da cápsula da caixa de tic tac.

Coloquei na boca e dei um último e saudoso abraço naquela pessoa que tanto me ensinou em tão pouco tempo, e que até hoje guardo na lembrança com tanto carinho

Novamente uma sala escura, uma cadeira, uma porta.

Fiquei um longo tempo ali sentado, vivenciando essa lembrança, agora de algo que realmente aconteceu, algo que não precisa ser mudado. Me questionava porque aquela porta me levara até ali: um ciclo que teve um início, um meio e um fim, bem definidos e felizes.

Era hora de seguir adiante. A porta à minha frente me esperava. Me levaria a algo que já vivi ou algo que nunca aconteceu? Não sabia, mas queria seguir adiante, ver o que me esperava.