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quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Foste feliz?

 A bela música que cá coloquei na última semana traz um questionamento interessante: no final do embate (interno) entre o tempo (sempre implacável) e o amor, sendo de fato o fim da nossa vida nesta existência, Deus de seu lugar perguntará: foste feliz?

É algo realmente complexo, tenho certeza que se fosse meu momento, não saberia responder de prontidão, e se o fizesse de bate pronto não seria deveras sincero. Talvez minha resposta fosse: o que é a felicidade, meu Senhor? O que é ser feliz?

Vi durante minha vida, por inúmeras vezes, pessoas que aparentavam feliz, demostravam serem felizes em sorrisos, fotos, palavras, vídeos. Faziam questão de mostrar ao mundo pelas redes sociais uma felicidade que me parecia ser irreal. Algumas, mesmo pessoalmente, me pareciam felizes como nas histórias infantis. Me pareciam personagens de si mesmos.

Não questiono a capacidade de serem felizes, de encontrar a felicidade de alguma forma, mesmo diante de tantas coisas que eu via e vivia ao meu redor. Questiono os personagens, questiono a imagem, os rótulos e a constância de tal felicidade aparente. Pareciam felizes e pareciam ter todos os rótulos socialmente aceitos como "ser felizes".

Conheci pessoas que pareciam ter tudo que era preciso para estarem sempre felizes, mas não aparentavam estar. Vi pessoas que aparentavam estar felizes, mas viviam tomando remédios que me deixavam na dúvida se era uma felicidade real ou química.

Vi tantos com tão pouco,  que não apenas pareciam, mas transmitiam felicidade; outros abastados de motivos e eram realmente infelizes.

Diante de tudo isso, pergunto o que é ser feliz? 

Aprendi que a felicidade não está nas telas, nas fotos, nas imagens ou personagens que criamos para viver. A felicidade está dentro de nós, e mesmo assim é custoso encontrá-la, por vezes está tão fundo que só com muito trabalho a encontramos. A felicidade está no desprendimento. E isso aprendi com muitos erros.

Sim, puro desprendimento de imagens, rótulos e valores vazios. Um ponto em que você não se importa se algo vai aparentar inadequado ou tolo para os outros contanto que seja o que te faz feliz. Desprendimento a ponto de você renunciar a algo que desejaria para ver alguém feliz e ficar feliz de verdade com isso. Ter a empatia de ficar feliz por ver alguém bem, muitas vezes ver alguém seguir um caminho que você gostaria para si mesmo, mas não pode por algum motivo. E ficar feliz por isso. Abandonar invejas, rancores, ser sincero consigo e com os outros. Afastar-se das toxidades, por mais difícil que seja. 

Ser feliz não é um simples ser. É um aprendizado, um caminho de vida, um longo caminho. A felicidade plena só se alcançará realmente no último suspiro de vida, até lá é apenas felicidade em construção.

Após meu último suspiro, quando Deus me perguntar: "Foste feliz?", espero poder responder afirmativamente. Espero ter tempo de vida suficiente para poder responder um sim bem sincero.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Sobre o tempo e o coração

 


Sobre o tempo e o coração


Eu desejo o tempo certo 

não o oposto do incerto,

mas aquele que me diz seu sim


O que sopra encantamento 

mesmo que no desalento 

faça-me provar o que é melhor 


Que me alinhe ao momento sob a luz do entendimento que faz voltar ao pó  as ilusões


Sou do tempo um resultado, 

inocente ou ser culpado, não, não cabe aqui juízo algum


Bem melhor é ser presente, nunca dele ser ausente, pois ele se vai sem se despedir


Porque o tempo não se prende nas esquinas das quimeras 

nem se rende à voz da imposição 


Não espera os distraídos, nem perdoa  os seus conflitos

e vai sem perguntar se já curou


Porque o tempo é implacável, 

faz do medo um insondável, 

faz ruínas, traz a escuridão 


Mas o tempo desconhece, nem de longe reconhece 

o poder que tem o coração 


Há quem diga que a verdade cedo ou tarde nos invade 

frente a frente o tempo e coração 


Sem efeitos, sem disfarces, sem excesso, sem vaidade, o puro estado do que já restou 


Um encontro entre as partes, 

os dois lados do embate 

que por fim terão que se entender 

Faz a conta do que vives, 

o que somas e divides 

sem temer o que vais encontrar


No final há uma pergunta, 

um olhar de quem escuta 

que não poderás mais evitar 

Deus em seu lugar de honra 

no altar de tua alma vai te perguntar: foste feliz?


Pe Fábio de Melo,scj


quarta-feira, 6 de julho de 2022

Vem noite

 




.....


Vem, Noite antiquíssima e idêntica,

Noite Rainha nascida destronada,

Noite igual por dentro ao silêncio. Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas

No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,

Vem, levemente,

Vem sozinha, solene, com as mãos caídas

Ao teu lado, vem

E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.

Funde num campo teu todos os campos que vejo,

Faze da montanha um bloco só do teu corpo,

Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.

Todas as estradas que a sobem,

Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.

Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,

E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,

Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.

Na distância subitamente impossível de percorrer.


Nossa Senhora

Das coisas impossíveis que procuramos em vão,

Vem soleníssima,

Soleníssima e cheia

De uma oculta vontade de soluçar,

Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.

E todos os gestos não saem do nosso corpo

E só alcançamos onde o nosso braço chega,

E só vemos até onde chega o nosso olhar.


Vem, dolorosa,

Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,

Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,

Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.

Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.


Vem, lá do fundo

Do horizonte lívido,

Vem e arranca-me

Do solo de angústia e de inutilidade

Onde vicejo.


Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,

Folha a folha lê em mim não sei que sina

E desfolha-me para teu agrado,

Para teu agrado silencioso e fresco.


Vem sobre os mares,

Sobre os mares maiores,

Sobre os mares sem horizontes precisos,

Vem e passa a mão pelo dorso da fera,

E acalma-o misteriosamente,

Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!


Vem, cuidadosa,

Vem, maternal,

Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste

À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,

E que viste nascer Jeová e Júpiter,

E sorriste porque tudo te é falso e inútil.


Vem, Noite silenciosa e extática,

Vem envolver na noite manto branco

O meu coração...

Serenamente como uma brisa na tarde leve,

Tranquilamente com um gesto materno afagando.

Com as estrelas luzindo nas tuas mãos

E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.


Todos os sons soam de outra maneira

Quando tu vens.

Quando tu entras baixam todas as vozes,

Ninguém te vê entrar.

Ninguém sabe quando entraste,

Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,

Que tudo perde as arestas e as cores,

E que no alto céu ainda claramente azul

Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.


30-6-1914

“Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente)”. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 155.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Das vantagens de ser bobo - Clarice Lispector

 



O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. Se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.

Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.

O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham vida.

Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


Clarice Lispector A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Se te queres matar...




Se te queres matar, porque não te queres matar?

Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,

Se ousasse matar-me, também me mataria...

Ah, se ousares, ousa!

De que te serve o teu mundo interior que desconheces?

Talvez, matando-te, o conheças finalmente...

Talvez, acabando, comeces...

E de qualquer forma, se te cansa seres,

Ah, cansa-te nobremente,

E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,

Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!

Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Sem ti correrá tudo sem ti.

Talvez seja pior para outros existires que matares-te...

Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado

De que te chorem?

Descansa: pouco te chorarão...

O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,

Quando não são de coisas nossas,

Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,

Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda

Do mistério e da falta da tua vida falada...

Depois o horror do caixão visível e material,

E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.

Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,

Lamentando a pena de teres morrido,

E tu mera causa ocasional daquela carpidação,

Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...

Muito mais morto aqui que calculas,

Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,

E depois o princípio da morte da tua memória.

Há primeiro em todos um alívio

Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,

E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:

Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.

Duas vezes no ano pensam em ti.

Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,

E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...

Se queres matar-te, mata-te...

Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...

Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera

As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,

Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?

Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,

Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?

Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:

Torna-te parte carnal da terra e das coisas!

Dispersa-te, sistema físico-químico

De células nocturnamente conscientes

Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,

Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,

Pela relva e a erva da proliferação dos seres,

Pela névoa atómica das coisas,

Pelas paredes turbilhonantes

Do vácuo dinâmico do mundo...

26-4-1926
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 22.
 

quarta-feira, 15 de junho de 2022

quinta-feira, 9 de junho de 2022

O tempo


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mário Quintana