Texto: Francisco de Carvalho
Texto: Francisco de Carvalho
Sempre quis acreditar que somos seres em constante evolução
e, ao longo de meus dias, tive mais certeza disso.
Com certeza, hoje já não sou o mesmo que era há décadas,
anos, semanas. Mudei minha forma de pensar sobre muitas coisas, abandonei
velhos hábitos, “vícios” e pensamentos, e, é claro, adquiri tantos outros. E
nada seria mais correto que mudar meus pensamentos e percepções.
Nasci antes dos anos 90, o que me faz de uma geração que
viveu e conviveu com uma série de coisas que hoje seriam consideradas absurdo.
Foi uma época sem limites, sem censuras ou noção. Os programas humorísticos
abusavam de piadas envolvendo religião, cor de pele, identificação sexual,
xenofobia e todo tipo de coisa que hoje enxerga-se como preconceito. Os
programas de auditório buscavam ganhar audiência com pessoas seminuas se digladiando
em uma banheira para pegar sabonetes, ou outros tipos de exposição tanto de
imagem quanto de palavras. Crianças cantavam junto quando vocalista cantava da
suruba que lhe passaram a mão na bunda, mas ele não “comeu ninguém”, ou sobre
valer tudo, só não vale dançar homem com homem e nem mulher com mulher, o resto vale.
Não há pessoa que tenha vivido nessa época que hoje não seja
ao menos um preconceituoso em desconstrução. Nunca discriminei pessoas por
qualquer característica individual dela, mas estava imbuído nessa atmosfera que
tratava com naturalidade determinadas situações, manifestações ou humor. E,
para mim, ainda hoje existe uma linha muito tênue entre o aceitável e o
ofensivo. Aos “olhos atuais” passei por vezes pelo que hoje chamam de “bullying”,
mas que na época era situação normal de intimidação a ser vencida com inteligência,
e piadas a serem retribuídas.
Mudei meu pensamento (e continuo mudando) em relação à religião e religiões. Tenho ciência que há uma distância entre o que são
doutrinas humanas e o que deve ser inspiração Divina. E isso em relação a
qualquer doutrina que exista. Sigo uma, simpatizo com outra e respeito todas.
Acredito que todas têm o seu valor e também seus defeitos, pois independente da
religião, todas possuem um elemento muito falho e sujeito a distorcer o que é o
correto: o ser humano.
No fim, sou fruto dos erros e acertos que me trouxeram até
aqui, do que assimilei de bom e ruim, e do que busco filtrar. Creio que só de
identificar o bom e ruim que assimilei, é um avanço, pois ao contrário
do que alguns “imutáveis” dizem, nem tudo é “mimimi”. Nem tudo...
Chega um momento em que o mundo a seu redor te comprime de
tal forma, que tudo que se deseja é expandir para romper essa pressão. Nesse
momento olho a meu redor e procuro um porto seguro, um cais em que possa aportar,
descansar a mente e recordar-me de tempos melhores, mesmo que em silêncio.
Um simples momento em que olhe de onde parti, o que eu era,
para identificar aonde cheguei, orgulhar-me do que acertei e partir de novo,
agora com ciência de onde errei. Lugares que conheçam mais do que eu aparento,
ou aparentava, ser. Conheçam minha essência.
São poucos lugares assim. Bem poucos mesmo, que se fosse
contar não gastaria uma mão para isso. E por muito tempo deixei de lado, mesmo
com as lembranças, me afastei um pouco, deixei de visitar. Ao olhar hoje, percebo
o quanto esses lugares queridos cresceram, alguns tanto, que agregaram outras
áreas, deram origem a belos lugares de paz e alegria. Fico feliz com isso,
assim como fico feliz ao perceber que apesar de tanto crescimento, continuam
sendo um lugar de conforto, de paz para meus dias atribulados. Gosto de
imaginar que de alguma forma fiz parte do crescimento desses lugares, mesmo que
seja um pouco petulante de minha parte pensar assim
Lamento ter passado tanto tempo distante. Tenho ciência que
muito do que passei, muito do que me fez mal, poderia ter sido mais suportável
se me desse ao “luxo” de repousar, mesmo que por alguns minutos nesses recantos
tão adoráveis, reiniciar a mente e o coração para retornar às batalhas.
Estou disposto a voltar às origens. Será preciso para
sobreviver com sanidade.
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...
s.d.
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 111.
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
9-10-1934
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 64.
Hoje, na verdade, eu não quereria escrever nada.
Diferente de algumas vezes que entro aqui com uma ideia, um texto para transcrever ou comentar, hoje simplesmente pausei minhas atividades para escrever nada. Acessando o navegador, a autossugestão me mostrou o endereço deste repositório de escritos, possivelmente por estar no histórico, pelo mero acaso ou ocaso do destino.
Falarei, ou melhor, escreverei sobre os dias. Quentes e caudalosos dias ainda de primavera nesta cidade, com temperaturas acima de 40°C e sensação térmica passando dos 55°C. Temperaturas surpreendentes para um mês de novembro? Talvez para quem não acompanhe os acontecimentos, ou prefira ignorá-los. Matas inteiras são destruídas para dar lugar a pastos, plantações baixas e algumas vezes apenas para extrativismo puro de madeira e materiais de subsolo, sempre, é claro, sem a devida (e necessária) recomposição vegetal. Nas cidades, árvores que produziam sombra e amenizavam o clima são retiradas, certas vezes para erigirem mais um monumental prédio de concreto concentrador de temperatura, e outras vezes sem o menor motivo. E vamos ano após ano sofrendo as consequências dessas atitudes.
No cenário político, temos novamente a decepção com quem ocupa o executivo federal. Não que esteja sendo pior que seu antecessor, o que demandaria um esforço grande e não fazer o básico. A decepção é apenas por estar aquém do que poderia fazer. Novamente não é surpresa para quem acompanha o histórico, mas dentre as opções que se tinha, em especial no segundo turno. Mas deixemos de lado a política que tanto tem nos divido, ao invés de nos unir pelo bem maior e de todos.
Dias de mudanças, e mudanças importantes. Muitas mais internas do que externas, onde o verdadeiro significado de muitas coisas, inclusive de algumas aqui escritas. O tempo que nos muda, nos molda, que nos é cada vez mais curto e por isso, por sentirmos que nos falta, começamos a valorizar mais, jogando de lado pouco a pouco o que nada nos acrescenta, nada nos difere. A sabedoria dos "antigos", a sinceridade que a princípio achava graça, depois passei a admirar incrédulo, e que agora entendo e procuro repetir. Tão mais fácil ser sincero, mesmo que desagrade em um primeiro momento.
E de dias que passam, de tempo que se encurta, mais um ano vai passando e já está próximo ao fim. Não sei que metas fiz no início do ano, nem mesmo sei se as fiz, mas pouco me importa. Fiz o melhor, e de melhor em melhor fui seguindo, entre erros e acertos, mas sempre procurando o melhor. Está bom.
E do nada a escrever, escrevi bastante. Agradeço por ler até aqui.
Que sua vida seja abençoada.
Autor: Michel de Montaigne