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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Poema em linha reta - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)




Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos.


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das

etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Felicidade Realista – Martha Medeiros

 



A princípio bastaria ter saúde,

dinheiro e amor,

o que já é um pacote louvável,

mas nossos desejos são ainda mais complexos.

Não basta que a gente esteja sem febre:

queremos, além de saúde,

ser magérrimos, sarados, irresistíveis.

Dinheiro?

Não basta termos para pagar o aluguel,

a comida, o cinema, o teatro:

queremos a piscina olímpica

e uma temporada num SPA cinco estrelas.


II

E quanto ao amor?

Ah, o amor…

Não bastam termos alguém

com quem podemos conversar,

dividir uma pizza

e fazer sexo de vez em quando.

Isso é pensar pequeno: queremos

amor todinho maiúsculo.

Queremos estar visceralmente apaixonados,

queremos ser surpreendidos por declarações

e presentes inesperados.

Queremos jantar a luz de velas

de segunda a domingo,

queremos sexo selvagem e diário,

queremos ser felizes assim e não de outro jeito.


III

É o que dá ver tanta televisão.

Simplesmente esquecemos-nos de tentar ser felizes

de uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante pode ou não,

ser sinônimo de felicidade.

Você pode ser feliz solteiro,

feliz com uns romances ocasionais, feliz

com um parceiro, feliz sem nenhum.

Não existe amor minúsculo,

principalmente quando se trata de amor-próprio.


IV

Dinheiro é uma benção.

Quem tem, precisa aproveitá-lo,

gastá-lo, usufruí-lo.

Não perder tempo juntando,

juntando, juntando.

Apenas o suficiente para se sentir seguro,

mas não aprisionado.

E se a gente tem pouco,

é com este pouco que vai tentar segurar a onda,

buscando coisas que saiam de graça,

como um pouco de humor, um pouco de fé

e um pouco de criatividade.

Ser feliz de uma forma realista

é fazer o possível e aceitar o improvável.


V

Fazer exercícios sem almejar passarelas,

trabalhar sem almejar o estrelato,

amar sem almejar o eterno.

Olhe para o relógio: hora de acordar.

É importante pensar-se ao extremo,

buscar lá dentro o que nos mobiliza,

instiga e conduz,

mas sem exigir-se desumanamente.

A vida não é um jogo

onde só quem testa seus limites

é que leva o prêmio.


VI

Não sejamos vítimas ingênuas

desta tal competitividade.

Se a meta está alta demais, reduza-a.

Se você não está de acordo com as regras,

demita-se. Invente seu próprio jogo.

Faça o que for necessário para ser feliz.

Mas não se esqueça que a felicidade

é um sentimento simples,

você pode encontrá-la

e deixá-la ir embora

por não perceber sua simplicidade.

Ela transmite paz e não sentimentos fortes,

que nos atormenta

e provoca inquietude no nosso coração.

Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo,

mas não felicidade.


Martha Medeiros  , Montanha-Russa. Porto Alegre: L&PM Editores, 2003.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Viver é muito perigoso...

 



"Viver é muito perigoso... 

Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... 

Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa... 

O mais difí­cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.


Guimarães Rosa

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Você já amou muito um lugar?

 


“Um conselho: se você amou muito um lugar, não faça a besteira de ir visita-lo. Porque você vai visitar pensando que vai encontrar o tempo, mas o tempo não está mais lá. É melhor você ficar com a imagem da sua cabeça.” Rubem Alves






Quem nunca cometeu tal erro? Quem nunca fez tal coisa? Eu fi-lo e sei que são sábias palavras. 

E do alto de todo meu apreço pela rotina, e por repetições, me é duro dizer que é a pura verdade. Porque no fundo você não amou o lugar. Você amou como se sentiu naquele lugar, naquele tempo, naquela ocasião. Se voltar, nada mais será o mesmo. O tempo é outro, o momento, até você não é mais a mesma pessoa. 

Você volta e espera que se sinta da mesma maneira, mas isso não acontece. O que antes era uma grata surpresa, agora é uma espécie de monotonia, onde você percebe defeitos e problemas que não vira antes, mas possivelmente já existiam. A sensação do desbravamento se desfaz e em algum momento você vai pensar que "da outra vez, foi melhor". E foi, tanto que você "amou", tanto que ficou tentado a voltar e acabou sucumbindo a tentação.

Não vá, deixe na memória. Procure novos caminhos, novas direções. Pode ser que você dê a sorte de ter uma experiência ainda melhor a somar nas lembranças de bons lugares.

Sim, pode ser que retornando a um "lugar amado" você tenha uma boa experiência, talvez a conjunção de fatores te propicie isso, mas é um acaso, uma sorte nem sempre apurada. Se teve essa sorte, volte ao início e não faça a besteira de visitá-lo... A sorte acaba, mas as boas lembranças são eternas.

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Foste feliz?

 A bela música que cá coloquei na última semana traz um questionamento interessante: no final do embate (interno) entre o tempo (sempre implacável) e o amor, sendo de fato o fim da nossa vida nesta existência, Deus de seu lugar perguntará: foste feliz?

É algo realmente complexo, tenho certeza que se fosse meu momento, não saberia responder de prontidão, e se o fizesse de bate pronto não seria deveras sincero. Talvez minha resposta fosse: o que é a felicidade, meu Senhor? O que é ser feliz?

Vi durante minha vida, por inúmeras vezes, pessoas que aparentavam feliz, demostravam serem felizes em sorrisos, fotos, palavras, vídeos. Faziam questão de mostrar ao mundo pelas redes sociais uma felicidade que me parecia ser irreal. Algumas, mesmo pessoalmente, me pareciam felizes como nas histórias infantis. Me pareciam personagens de si mesmos.

Não questiono a capacidade de serem felizes, de encontrar a felicidade de alguma forma, mesmo diante de tantas coisas que eu via e vivia ao meu redor. Questiono os personagens, questiono a imagem, os rótulos e a constância de tal felicidade aparente. Pareciam felizes e pareciam ter todos os rótulos socialmente aceitos como "ser felizes".

Conheci pessoas que pareciam ter tudo que era preciso para estarem sempre felizes, mas não aparentavam estar. Vi pessoas que aparentavam estar felizes, mas viviam tomando remédios que me deixavam na dúvida se era uma felicidade real ou química.

Vi tantos com tão pouco,  que não apenas pareciam, mas transmitiam felicidade; outros abastados de motivos e eram realmente infelizes.

Diante de tudo isso, pergunto o que é ser feliz? 

Aprendi que a felicidade não está nas telas, nas fotos, nas imagens ou personagens que criamos para viver. A felicidade está dentro de nós, e mesmo assim é custoso encontrá-la, por vezes está tão fundo que só com muito trabalho a encontramos. A felicidade está no desprendimento. E isso aprendi com muitos erros.

Sim, puro desprendimento de imagens, rótulos e valores vazios. Um ponto em que você não se importa se algo vai aparentar inadequado ou tolo para os outros contanto que seja o que te faz feliz. Desprendimento a ponto de você renunciar a algo que desejaria para ver alguém feliz e ficar feliz de verdade com isso. Ter a empatia de ficar feliz por ver alguém bem, muitas vezes ver alguém seguir um caminho que você gostaria para si mesmo, mas não pode por algum motivo. E ficar feliz por isso. Abandonar invejas, rancores, ser sincero consigo e com os outros. Afastar-se das toxidades, por mais difícil que seja. 

Ser feliz não é um simples ser. É um aprendizado, um caminho de vida, um longo caminho. A felicidade plena só se alcançará realmente no último suspiro de vida, até lá é apenas felicidade em construção.

Após meu último suspiro, quando Deus me perguntar: "Foste feliz?", espero poder responder afirmativamente. Espero ter tempo de vida suficiente para poder responder um sim bem sincero.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Sobre o tempo e o coração

 


Sobre o tempo e o coração


Eu desejo o tempo certo 

não o oposto do incerto,

mas aquele que me diz seu sim


O que sopra encantamento 

mesmo que no desalento 

faça-me provar o que é melhor 


Que me alinhe ao momento sob a luz do entendimento que faz voltar ao pó  as ilusões


Sou do tempo um resultado, 

inocente ou ser culpado, não, não cabe aqui juízo algum


Bem melhor é ser presente, nunca dele ser ausente, pois ele se vai sem se despedir


Porque o tempo não se prende nas esquinas das quimeras 

nem se rende à voz da imposição 


Não espera os distraídos, nem perdoa  os seus conflitos

e vai sem perguntar se já curou


Porque o tempo é implacável, 

faz do medo um insondável, 

faz ruínas, traz a escuridão 


Mas o tempo desconhece, nem de longe reconhece 

o poder que tem o coração 


Há quem diga que a verdade cedo ou tarde nos invade 

frente a frente o tempo e coração 


Sem efeitos, sem disfarces, sem excesso, sem vaidade, o puro estado do que já restou 


Um encontro entre as partes, 

os dois lados do embate 

que por fim terão que se entender 

Faz a conta do que vives, 

o que somas e divides 

sem temer o que vais encontrar


No final há uma pergunta, 

um olhar de quem escuta 

que não poderás mais evitar 

Deus em seu lugar de honra 

no altar de tua alma vai te perguntar: foste feliz?


Pe Fábio de Melo,scj


quarta-feira, 6 de julho de 2022

Vem noite

 




.....


Vem, Noite antiquíssima e idêntica,

Noite Rainha nascida destronada,

Noite igual por dentro ao silêncio. Noite

Com as estrelas lantejoulas rápidas

No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,

Vem, levemente,

Vem sozinha, solene, com as mãos caídas

Ao teu lado, vem

E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.

Funde num campo teu todos os campos que vejo,

Faze da montanha um bloco só do teu corpo,

Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.

Todas as estradas que a sobem,

Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.

Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,

E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,

Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.

Na distância subitamente impossível de percorrer.


Nossa Senhora

Das coisas impossíveis que procuramos em vão,

Vem soleníssima,

Soleníssima e cheia

De uma oculta vontade de soluçar,

Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.

E todos os gestos não saem do nosso corpo

E só alcançamos onde o nosso braço chega,

E só vemos até onde chega o nosso olhar.


Vem, dolorosa,

Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,

Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,

Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.

Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.


Vem, lá do fundo

Do horizonte lívido,

Vem e arranca-me

Do solo de angústia e de inutilidade

Onde vicejo.


Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,

Folha a folha lê em mim não sei que sina

E desfolha-me para teu agrado,

Para teu agrado silencioso e fresco.


Vem sobre os mares,

Sobre os mares maiores,

Sobre os mares sem horizontes precisos,

Vem e passa a mão pelo dorso da fera,

E acalma-o misteriosamente,

Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!


Vem, cuidadosa,

Vem, maternal,

Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste

À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,

E que viste nascer Jeová e Júpiter,

E sorriste porque tudo te é falso e inútil.


Vem, Noite silenciosa e extática,

Vem envolver na noite manto branco

O meu coração...

Serenamente como uma brisa na tarde leve,

Tranquilamente com um gesto materno afagando.

Com as estrelas luzindo nas tuas mãos

E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.


Todos os sons soam de outra maneira

Quando tu vens.

Quando tu entras baixam todas as vozes,

Ninguém te vê entrar.

Ninguém sabe quando entraste,

Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,

Que tudo perde as arestas e as cores,

E que no alto céu ainda claramente azul

Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

A lua começa a ser real.


30-6-1914

“Dois Excertos de Odes (Fins de duas odes, naturalmente)”. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 155.