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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Cinzas

Quarta-feira de cinzas. Cinzas do carnaval que já queimou a energia de tantos foliões e o dinheiro de tantos outros. Cinzas com as quais são marcadas as frontes de quem vai a cerimônia de hoje, nesse início da Quaresma, os quarenta dias de preparação para festa maior da Igreja: a Páscoa.

Fico feliz de ter passado mais um carnaval. Não sou apreciador da algazarra que é feita, mas respeito quem gosta disso. Por outro lado fico triste com a depravação que se tornou o carnaval para alguns. Afinal, justificam estes, no carnaval pode, no carnaval ninguém é de ninguém nem de si próprio. E homens que andam engravatados o ano inteiro aparecem vestidos de drag queens, "soltando a franga". Homens e mulheres banalizando a própria alegria, com futilidades.


No fim essa imagem resume o que vemos muitas vezes.

Desejo que você tenha aproveitado bem o carnaval, seja se divertindo (de verdade) ou descansado.


Carnaval...

Publico novamente um texto que escrevi um tempo atrás sobre o carnaval.


"A luz apaga porque já raiou o dia
e a fantasia vai voltar pro barracão
outra ilusão desaparece quarta-feira
queira ou não queira terminou o carnaval (...)"

Ah! Fim do carnaval! Quem me conhece sabe o quanto gosto da quarta-feira de cinzas. Fim do carnaval, da agitação... Início da Quaresma, e efetivamente do ano.

Pode parecer uma afirmação ranzinza, de aversão à festa, à diversão popular, mas acredite em mim, não é. O carnaval tem "duas importâncias" que admito e acredito: desopilação mental (para quem gosta) e prenuncio da Quaresma (para quem crê). Infelizmente essas duas características acabam perdendo a ligação entre si, diante da desestruturação social provocada tipo de festa que se tornou o carnaval.

Em sua origem recente, carnaval era a última festa antes de começar o segundo período mais importante da Igreja: a Quaresma, época de reflexão e preparação para Páscoa que só perde em importância para própria Páscoa. Usualmente não se comia carne durante a Quaresma, por isso fazia-se essa "festa da carne", carneval, carnaval.

Deturpado o sentido da festa, assim como a sociedade em si cada dia mais deturpada, virou uma festa de depravação, onde o culto à libido é maior que a própria vontade de se divertir verdadeiramente. Pessoas, sob a desculpa de ser carnaval, já não são donas de si mesmas, passam a ser de todos e ao mesmo tempo de ninguém. A dança, a música, tudo passou a ser apenas um complemento aos principais atores da festa: "pegação", sexo. No meio disso, ainda tem que só queira brigar...

Lembro de meus tempos de criança, tinha uma bandinha na esquina que tocava aquelas músicas antigas de carnaval. Minha alegria no carnaval era apenas ir até onde estava a bandinha, e comer pipoca doce e salgada misturada. Desde aquele tempo não era adepto de ficar no meio da muvuca, nem podia na época. Mas era algo alegre de se ver, algo civilizado onde no fim tudo que se via era confete, serpentina. Hoje, no melhor dos cenários, quando um bloco passa ficam toneladas de lixo de todos os tipos, e um cheiro insuportável de urina.

Sonho com a volta dos velhos carnavais, onde quem gosta pode se divertir sem medo, e sem ter que presenciar situações lamentáveis e odores tão lamentáveis quanto. E quem não gosta possa olhar e sorrir com alegria dos foliões de verdade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Três dias

Esse texto fala de três dias. Três dias que poderiam ser na vida de qualquer pessoa, na sua, na minha, na de alguém que você conhece. Ao ler o texto tente perceber em que época ele se encaixa em tua, em que situação. Podem ser três dias seguidos ou três aleatórios. São três dias de sua vida, três dias de nossas vidas.

Primeiro dia

Aparentemente era um dia como outro qualquer que tenha vivido e ao mesmo tempo mais um dessa nova fase. Uma fase que não sabia ao certo se deveria passar, se era certo ou errado, mas era uma tentativa de mudança, se boa a seguiria se ruim aprenderia algo. Mas hoje não pensava nisso, apenas caminhara até ali para esperar. Sim, mais uma vez esperar, como tanto esperara em outras épocas, outras fases, uma espera nem sempre frutífera, nem sempre correspondida, mas uma espera.

Os elementos eram outros, e ali repetira uma espera que já dera certo, em outra ocasião, com outro objetivo. E como tudo, a espera chega ao fim, não por cansaço ou desistência mas por chegada. Não era como pensava, não é como esperava e ali começa um misto de decepção e surpresa que perduraria por um bom tempo em alternância de intensidades; ora a decepção era maior, ora era a surpresa, até o dia em que uma deveria prevalecer, terminando com a outra.

Naquele dia a surpresa ofuscou a decepção o suficiente para permitir que outros dias existissem. Não havia culpados ou inocentes nesse efeito ludibriante, o próprio fato do sangue correr nas veias já era suficiente para justificar a situação. E assim o dia decorreu até o seu fim, na certeza que novos dias viriam a partir daqueles. Bons ou ruins o tempo diria. E as atitudes também.

Segundo dia

Como gado que sai para o matadouro, sair sabendo onde vai, sabendo o que pode acontecer. E quer que aconteça? Não e sim. O pensamento não importa, tampouco o raciocínio, pois se estes contassem deveras nada aconteceria. Racionalmente o nada seria o certo. Sem pensar o tudo está à sua espera. Não provoca, deixa que aconteça, que a sociedade o corrompa, que o senso-comum faça de si podridão.

Sente-se mal? Sem pensar em nada nem sente se é bom ou ruim, apenas age e deixa-se agir, como uma máquina programada para uma tarefa, como um bitolado em uma linha de produção. Age por agir, segue o que deve seguir, sem pensar, sem questionar.

Nesse dia a decepção paira não sobre o que há a sua volta, ainda não é tempo disso. Decepciona-se consigo mesmo, mas esquece de si durante um bom tempo. Tempos obscuros de aprendizado. Tempos em que esquece a face de seu pai, tempos em que esquece quem é.

Terceiro dia

Dias se passam, horas se passam, talvez meses ou anos. Ou talvez essa seja a sensação quando se esquece quem realmente é, se age contra seus princípios, se age contra seu caráter. Stephen King diria: quando esquece-se a face de seu pai.

Mas quando o caráter é forte, em algum momento ele prevalece, toma a frente. Satura-se de fugir de si e quer-se ter o controle que predera. E toda aquela surpresa que um dia existiu, desgasta-se sendo totalmente sufocada pela decepção, que agora exala de seus poros e é visível a seu redor. E tudo fica por um fio muito fino que ao menor peso será rompido.

Um grande peso chega e não há mais como segurar, nem que se queira, nem se quisesse realmente. Não existe transição, o momento é de realmente largar tudo e voltar a si, seu caminho, seu verdadeiro rumo. O que deveria aprender aprendeu, hora de seguir em frente. E nunca mais esquecer que é, nunca mais esquecer a face de seu pai.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Valorizar

Tenho aprendido cada dia mais a valorizar mais e mais pequenas coisas, pequenos momentos, pequenas dádivas da vida.

Dizem que só valorizamos algo quando perdemos e comigo não foi muito diferente nem continua sendo diferente. Pequenas "surpresas" desagradáveis, pequenos e consistentes problemas de saúde que venho tendo nos últimos anos tem me ensinado o valor de cada mísero grão de arroz que coloco em minha boca, tamanha a limitação, para algumas coisas periódicas, tantas outras permanentes, que venho tendo.

Ao longo desse caminho passei por algumas fases até chegar onde estou hoje. Tive um longo tempo em que não sabia o que me fazia mal, nem qual era meu mal, pulando de médico em médico sem nenhum solução. Em resumo, fui a um primeiro que talvez um dia acertasse, mas todo remédio que me passava me fazia sentir ainda pior. O segundo, otimista demais, dizia que tudo que me receitava ia me fazer melhorar. O problema era que estava tratando algo que eu (ainda) não tinha e de tanto tratar o que eu não tinha, acabou agravando o que eu já tinha e me arrumando nova enfermidade.

Passada essa época "tenebrosa", finalmente fui a um médico que não apenas começou a tratar o que eu tinha como também disse abertamente que o monte de coisa que tomei erroneamente acabou com meu estômago. Vida que segue, passei por um período de aceitação de minhas limitações, inclusive do constante controle que eu teria de ter e as possíveis crises eventuais.  Nunca questionei "por que eu". Sempre digo que tudo é consequencia de nossas escolhas, e foi escolha minha me manter em um médico ou em outro pelo tempo que fiquei, assim como hoje é escolha minha comer algo que pode (ou não) me fazer mal, porque no fim mesmo mantendo uma alimentação saudável, o que não me fez mal hoje pode me dar algum desconforto em outra ocasião. É conviver.

Passar da aceitação ao hábito foi algo necessário. Valorizo cada coisa que eu como porque é o que eu posso comer. Fico privado de coisas que eu gosto muitas vezes, mas fico feliz porque um dia eu pude comer. Hoje fico apenas com vontade de dizer para pessoa: aproveite. Sem inveja, sem tristeza.

Porém também, certas vezes ando pela rua, e vejo como o real respeito pelo próximo é uma utopia, algo inalcançável. As pessoas não respeitam nem a si próprias, não respeitam sua própria saúde, como podem respeitar os outros? Gente fumando, comendo porcarias que só fazem mal a saúde, muitas vezes que já estão contaminadas, sendo vendidas sem as mínimas condições pelas calçadas. E essas pessoas seguem suas vidas como se fossem as mais saudáveis do mundo. Dessas, eu admito, tenho inveja. Sim, porque se eu pudesse ter uma vida dessas, comendo qualquer coisa sem nenhum efeito adverso, eu teria uma alimentação saudável como tenho hoje, mas com a certeza de não passar mal, afinal se o cara não passa mal poluindo seu corpo, imagina se não o fizesse.

Esse é apenas um exemplo de valorizar pequenas coisas, pequenos atos do dia a dia que não damos conta até o momento em que passam a influenciar nossa vida de forma significativa. Valorize sua vida, valorize o que você come, o ar que você respira, o sol, a chuva, as palavras que lhe são dirigidas, mesmo as mais rudes e duras. Valorize as palavras que saem de sua boca também. Valorize a si, e valorize quem está a seu redor.

A vida pode ser difícil mas nas pequenas coisas, pode valer a pena.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Despedida

Esta é a primeira e última vez que mencionarei este assunto. Guarde contigo como um segredo, não comente com ninguém nem mesmo comigo.  Após ler isto continuaremos como estamos, sem show nem choro, sem lamentos ou preocupações. Deixaremos a vida seguir e os acontecimentos também seguirem, conforme a vontade Divina.

Tenho um curto tempo de vida. Sim, minha vida está encurtada muito mais do que eu um dia poderia imaginar. Não há remédio que possa curar, o que praticamente nenhum exame foi capaz de detectar. Eu mesmo cheguei a pensar que não passavam de simples devaneios, mas na verdade, é muito mais que isso.  Nem o mais conceituado dos doutores do mundo pode dar solução ao que tenho: minha mente está em processo de degeneração. Não, não é nada cerebral, não é nada físico. Graças a Deus essa parte está intacta, e parece que durará o tempo que for preciso. Todos os outros exames me atestaram boa saúde, o que por um lado é bom. Mas talvez se algo a mais houvesse encurtaria o físico antes que o mental partisse de vez. Não sei...

Tempo exato? Só mesmo Deus sabe. Podem ser dias, semanas, talvez alguns anos. Tudo que posso fazer é esperar, e tentar ir levando minha vida conforme posso, tentando não afetar a vida das pessoas a meu redor o máximo de tempo possível. Não pretendo deixar de fazer nada, continuarei trabalhando, estudando, viajando, vivendo, pois isso também pode me ajudar a alongar um pouco o tempo, e retardar o colapso total.

Não fique triste, guarde contigo tudo o que já disse, guarde as lembranças de tudo que conversamos, sentimos e também o que vivemos. E viva, siga em frente sem tristeza alguma, apenas com tudo de bom que existe na vida. Você merece. Acontecerá um dia que não mais responderei se acaso chamares. Não será porque não quero, nem necessariamente por não poder... o mais provável é que nesse dia eu nem saiba como. Mas continuará vivendo em mim e eu ti enquanto o sangue circular em minhas veias, pois isso é o que podemos deixar para o mundo, nossa marca nas pessoas que de alguma forma tocamos, as conhecendo ou não. Pode ser que você nunca tenha me visto, mas o que escrevi de certa forma te tocou, te dá o direito de dizer que conhece ao menos um pouco de mim.

A partir desta linha, este assunto está guardado, selado e lacrado e não mais mencionado. Nunca mais. Sigamos vivendo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Morte do rouxinol dourado

Não sei ao certo quando ele nasceu. Sempre que saía o via ali, no alto daquele galho cantarolando feliz. A princípio não identificara direito que pássaro era, nem tempo tinha para isso tão corrida era minha manhãs.

Em meu retorno, cheguei algumas vezes a procurá-lo, mas nunca o achava no fim do dia. Mas ao amanhecer ali estava ele, com suas penas douradas a cantarolar sua melodia. Nem sempre conseguia ouvi-lo tamanho barulho da rua, mas via que ele cantava mesmo assim. Procurei a respeito e descobri que era um rouxinol de penas douradas, raro naquele ambiente. Deveria ter algum ninho por perto.

E assim ele passou a fazer parte de minha rotina: todas as manhãs ao acordar, ia até a janela e ficava a observá-lo ao longe por alguns minutos. Ao sair de casa, dava uma olhada para árvore e o via em meio ao ofuscante sol. E seguia o meu dia, muitas vezes enquanto estava no ônibus ficava imaginando se um dia conseguiria ouvir seu canto.

Havia dias que amanheciam chuvosos e mesmo assim ele estava no topo da árvore, com toda sua bela "penagem" encharcada, mas sem sequer se importar, estava ali com seu imponente cantar.

Em meio ao barulho dos carros, sob o sol quente ou chuva torrencial, todas as manhãs ele estava ali cantando e isso me motivava a não desistir, não me deixar vencer pela preguiça ou problemas e continuar meu caminho.

Não sei quanto tempo se passou, talvez semanas ou meses... Um dia acordei e não o vi mais. E o mesmo se repetiu nas semanas que seguiram. Pode ser que ele tenha encontrado outra árvore longe do alcance de meus olhos, mas dentro de mim eu senti que não era bem isso. Seu tempo tinha acabado.

Talvez por causa dessa sensação, misto de tristeza e gratidão pela inspiração que ele me dera, um dia desses pensei que o vira, voando longe, e pela primeira vez escutei seu canto, que para meus ouvidos parecia uma bela canção de despedida.

Voe amigo pássaro, voe para onde seu canto é preciso, mesmo que nunca seja ouvido, você nunca deixa de cantar. Mesmo depois que seu tempo acabe.




quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Zé Cochilo

Recebi esse texto de um amigo e gostaria de compartilhar com vocês para que reflitam sobre o assunto... Quem são os grande culpados?


A carta a seguir - tão somente adaptada por Barbosa Melo -, foi escrita por Luciano Pizzatto que é engenheiro florestal, especialista em direito sócio ambiental e empresário, diretor de Parque Nacionais e Reservas do IBDF-IBAMA 88-89, detentor do primeiro Prêmio Nacional de Ecologia.


Prezado Luis, quanto tempo.

Eu sou o Zé, teu colega de ginásio noturno, que chegava atrasado, porque o transporte escolar do sítio sempre atrasava, lembra né? O Zé do sapato sujo? Tinha professor e colega que nunca entenderam que eu tinha de andar a pé mais de meia légua para pegar o caminhão e que por isso o sapato sujava.

Se não lembrou ainda, eu te ajudo. Lembra do Zé Cochilo... hehehe, era eu. Quando eu descia do caminhão de volta pra casa, já era onze e meia da noite, e com a caminhada até em casa, quando eu ia dormi já era mais de meia-noite. De madrugada o pai precisava de ajuda pra tirar leite das vacas. Por isso eu só vivia com sono. Do Zé Cochilo você lembra, né Luis?
Pois é. Estou pensando em mudar para viver aí na cidade que nem vocês. Não que seja ruím o sítio, aqui é bom. Muito mato, passarinho, ar puro... Só que acho que estou estragando muito a tua vida e a de teus amigos aí da cidade. To vendo todo mundo falar que nós da agricultura familiar estamos destruindo o meio ambiente.

Veja só. O sítio de pai, que agora é meu (não te contei, ele morreu e tive que parar de estudar) fica só a uma hora de distância da cidade. Todos os matutos daqui já têm luz em casa, mas eu continuo sem ter porque não se pode fincar os postes por dentro de uma tal de APPA que criaram aqui na vizinhança.

Minha água é de um poço que meu avô cavou há muitos anos, uma maravilha, mas um homem do governo veio aqui e falou que tenho que fazer uma outorga da água e pagar uma taxa de uso, porque a água vai se acabar. Se ele falou, deve ser verdade, né Luís?
Pra ajudar com as vacas de leite (o pai se foi, né), contratei Juca, filho de um vizinho muito pobre aqui do lado. Carteira assinada, salário mínimo, tudo direitinho como o contador mandou.

Ele morava aqui com nós num quarto dos fundos de casa. Comia com a gente, que nem da família. Mas vieram umas pessoas aqui, do sindicato e da Delegacia do Trabalho, elas falaram que se o Juca fosse tirar leite das vacas às 5 horas tinha que receber hora extra noturna, e que não podia trabalhar nem sábado nem domingo, mas as vacas daqui não sabem os dias da semana, aí não param de fazer leite. Ô, os bichos aí da cidade sabem se guiar pelo calendário?
  Essas pessoas ainda foram ver o quarto de Juca e disseram que o beliche tava 2 cm menor do que     devia. Nossa! Eu não sei como encompridar uma cama, só comprando outra, né Luis? O candeeiro eles disseram que não podia acender no quarto, que tem que ser luz elétrica, que eu tenho que ter um gerador pra ter luz boa no quarto do Juca.

  Disseram ainda que a comida que a gente fazia e comia juntos tinha que fazer parte do salário dele. Bom Luís, tive que pedir ao Juca pra voltar pra casa, desempregado, mas muito bem protegido pelos sindicatos, pelos fiscais e pelas leis. Mas eu acho que não deu muito certo. Semana passada me disseram que ele foi preso na cidade porque botou um chocolate no bolso no supermercado. Levaram ele pra delegacia, bateram nele e não apareceu nem sindicato nem fiscal do trabalho para acudilo.

Depois que o Juca saiu, eu e Marina (lembra dela, né? Casei) tiramos o leite às 5 e meia, aí eu    levo o leite de carroça até a beira da estrada, onde o carro da cooperativa pega todo dia, isso se não chover. Se chover, perco o leite e dou aos porcos, ou melhor, eu dava, hoje eu jogo fora.

Os porcos eu não tenho mais, pois veio outro homem e disse que a distância do chiqueiro para o riacho não podia ser só 20 metros. Disse que eu tinha que derrubar tudo e só fazer chiqueiro depois dos 30 metros de distância do rio, e ainda tinha que fazer umas coisas pra proteger o rio, um tal de digestor. Achei que ele tava certo e disse que ia fazer, mas só que eu sozinho ia demorar uns trinta dia pra fazer, mesmo assim ele ainda me multou, e pra poder pagar eu tive que vender os porcos, as madeiras e as telhas do chiqueiro, fiquei só com as vacas. O promotor disse que desta vez, por esse crime, ele não vai mandar me prender, mas me obrigou a dar 6 cestas básicas pro orfanato da cidade. Ô Luís, aí quando vocês sujam o rio também pagam multa grande, né?

  Agora pela água do meu poço eu até posso pagar, mas tô preocupado com a água do rio. Aqui agora o rio todo deve ser como o rio da capital, todo protegido, com mata ciliar dos dois lados. As vacas agora não podem chegar no rio pra não sujar, nem fazer erosão. Tudo vai ficar limpinho como os rios aí né?

Mas não é o povo da cidade que suja o rio, né Luís? Quem será? Aqui no mato agora quem sujar tem multa grande, e dá até prisão. Cortar árvore então, Nossa Senhora! Tinha uma árvore grande ao lado de casa que murchou e tava morrendo, então resolvi derrubá-la para aproveitar a madeira antes dela cair por cima da casa.

Fui no escritório daqui pedir autorização, como não tinha ninguém, fui no Ibama da capital, preenchi uns papéis e voltei para esperar o fiscal vir fazer um laudo, para ver se depois podia autorizar. Passaram 8 meses e ninguém apareceu pra fazer o tal laudo, aí eu vi que o pau ia cair em cima da casa e derrubei. Pronto! No outro dia chegou o fiscal e me multou. Já recebi uma intimação do Promotor porque virei criminoso reincidente. Primeiro foram os porcos, e agora foi o pau. Acho que desta vez vou ficar preso.

  Tô preocupado, Luís, pois no rádio deu que a nova lei vai dá multa de 500 a 20 mil reais por hectare e por dia. Calculei que se eu for multado eu perco o sítio numa semana. Então é melhor vender e ir morar onde todo mundo cuida da ecologia. Vou para a cidade, aí tem luz, carro, comida, rio limpo. Olha, não quero fazer nada errado, só falei dessas coisas porque tenho certeza que a lei é pra todos.

  Eu vou morar aí com vocês, Luís. Mas fique tranquilo, vou usar o dinheiro da venda do sítio primeiro pra comprar essa tal de geladeira. Aqui no sitio eu tenho que pegar tudo na roça. Primeiro a gente planta, cultiva, limpa e só depois colhe pra levar pra casa. Aí é bom que vocês é só abrir a geladeira que tem tudo. Nem dá trabalho, nem plantar, nem cuidar de galinha, nem porco, nem vaca, é só abrir a geladeira que a comida tá lá, prontinha, fresquinha, sem precisá de nós, os criminosos aqui da roça.

Até mais Luis.
Ah, desculpe, Luís, não pude mandar a carta com papel reciclado, pois não existe por aqui, mas me aguarde até eu vender o sítio.

(Todos os fatos e situações de multas e exigências são baseados em dados verdadeiros.
A sátira não visa atenuar responsabilidades, mas alertar o quanto o tratamento ambiental
é desigual e discricionário entre o meio rural e o meio urbano.)



O Ser nasce imaculadamente puro, mas a sociedade o corrompe.